sábado, 9 de fevereiro de 2008

Juno


Acabei de sair do cinema depois de assistir à pré-estréia de "Juno" com uma sensação boa de não estar enganada sobre o filme: é realmente original, sensível, divertido e interessante. Realmente bom.

Numa safra fértil como costuma ser esse hiato Globo de Ouro - Oscar, com filmes densos e rígidos em cartaz, como "Onde os Fracos Não Tem Vez" e "Desejo e Reparação", "Juno" é quase um refresco, uma brisa leve no meio destes pesos pesados. Mas o melhor é que consegue este feito sem ser superficial ou mais do mesmo.

"Juno" tem senso de humor, mas é um drama. É atrevido, mas também, de certo modo, conservador. E transita entre isso sem fazer barulho. Quase desliza de tão gostoso de se ver. E tem uma trilha sonora que faz o prazer ser ainda maior.

Com ares de cinema independente (ares e alma, de fato), "Juno" é dirigido com delicadeza por Jason Reitman, do também ótimo e provocativo "Obrigado por Fumar" (2005). Mas o filme escapa de ser piegas em quase todos os momentos, e é comovente mesmo quando não consegue escapar. Afinal, todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas, já escreveu o grande poeta.

O que todo mundo já sabe e tem sido a sensação sobre "Juno" é que sua talentosa roteirista é uma marinheira de primeira viagem no ofício, com apenas 29 anos, blogueira e ex-stripper. Deus salve a América! Diablo Cody (como é conhecida) se revelou uma promessa e já está envolvida em um projeto de série de Spielberg, ao lado também de Reitman, "The United States of Tara" (em pré-produção).

O filme tem quatro indicações ao Oscar, e são algumas das fatias gordas do bolo: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro original, melhor atriz. Aliás, Ellen Page, que interpreta Juno, a garota que batiza o filme com nome de deusa grega, é um capítulo à parte e merece todas as meções honrosas. Sem seu talento, o filme perderia metade do carisma que tem. Mas mérito seja dado a todo elenco: ninguém se destoa, e "Juno" se torna sincero e especial.

A sinopse é simples, mas o filme não é simplista: Juno é uma garota de 16 anos que engravida de seu colega de escola, Paulie Bleeker (Michael Cera) e se vê em volta com todos os dilemas que uma gravidez representa, agravada pela irresponsabilidade da adolescência. Os belos Jennifer Garner e Jason Bateman são Vanessa e Mark Loring, o casal aparentemente impecável que deseja adotar o bebê de Juno... território que o filme explora com profundidade, não apenas passando pelo tema da adoção, mas fazendo uma breve mas certeira análise crítica também do casamento e da vida adulta.

Em algumas cenas chega a ser caricato, mas sempre com senso de humor apurado, então ainda assim, tem química e funciona. Não acho que todas as meninas de 16 anos sejam tão "alienadas" como Juno é, mas também não acho que o filme tenha a pretensão de representar uma classe... e de colocar todas as garotas desta idade em um mesmo barco.

O nome do filme, afinal, é o nome dela... nada mais pessoal e específico, certo?

Falar mais sobre o fime seria reduzi-lo. "Juno" é para ser visto... mostra que para fazer bom cinema não é necessário grandes produções e histórias mirabolantes. Os assuntos mais comuns, com um olhar novo, acabam sempre rendendo os melhores filmes. Meu candidato favorito para o Oscar de 2008. Vou torcer!

(Só uma curiosidade: alguém mais se lembrou da menina má de "Hard Candy" logo no começo do filme quando Ellen Page veste o capuz vermelho? Não sei se a referência foi proposital, mas talvez pudesse ser evitada, já que toda a "inocência" de Juno é o que mais falta à personagem de Ellen em "Meninama.com").
Por Fabiane Secches

"Juno" (Idem, EUA, 2007). Direção de Jason Reitman. Roteiro de Diablo Cody (Brook Busey). Com Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Alisson Janey, J.K. Simmons e elenco. Duração aproximada: 96 minutos. Site oficial:
http://www.foxsearchlight.com/juno/