terça-feira, 3 de abril de 2007

Mais Estranho Que a Ficção


Sabe aquele poder que todos nós já desejamos um dia ter, de alguma forma podermos prever e evitar episódios desastrosos em nossas vidas? Pois é esta a marca de "Mais Estranho Que a Ficção".

Já foi dito o quanto o roteiro é original e bem entrelaçado, mas o ponto forte é como se dá a inclusão da tecnologia digital na vida social - demonstrado tão próximo da vida cotidiana no Ocidente que a ficção na realidade do filme acontece de maneira suave.

Toda criativa trama se passa ao redor de Harold Crick, um funcionário da Receita Federal sistemático e calculista (Will Ferrell), mas que descobre o quanto sua vida pode reverberar nas outras. Esta humanização diante de outros personagens interessantes o reanima.

No elenco de peso ainda estão Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal, Queen Latifah, Dustin Hoffman e Tom Hulce.

A voz em off da escritora da estória não é exatamente novidade (embora haja desta vez interação direta desta voz com o protagonista), mas o realismo mesclado à comédia dramática e ficcional surpreende. Entretanto, o final é estranhamente redondo.

Por Tayla Correa Machado


Mais Estranho Que a Ficção (Stranger than Fiction, EUA, 2006). Direção de Marc Forsters. Roteiro de Zach Helm. Com Will Ferrell, Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal, Queen Latifah, Dustin Hoffman, Tom Hulce e elenco. Duração aproximada de 113 minutos. Site oficial: http://www.sonypictures.com/movies/strangerthanfiction/

sábado, 24 de março de 2007

Um Beijo a Mais


Cinco ano depois do original, chega aos cinemas a adaptação da ótima comédia dramática italiana, "L'Ultimo Baccio" (dirigida pelo talentoso Gabriele Muccino).

Para quem viu o original em 2001, a notícia do remake veio talvez com um misto de alegria e de reserva.

Primeiro, a alegria de trazer novamente à pauta temas sempre bem vindos e belamente abordados no longa: conflitos amorosos e existenciais atemporais e a grande dificuldade humana de fazer escolhas e renúncias.

Mas, de outro lado, recebemos esta informação ressabiados, já que o título original é tão bom que parecia dispensar qualquer releitura: "L'Ultimo Baccio" ("O Último Beijo" em português) é um filme simples, mas de uma sensibilidade tocante, com um refinado senso de humor e um olhar perspicaz sobre os relacionamentos amorosos.

Surge então a pergunta que a princípio incomoda: embora as reflexões trazidas por Muccino permaneçam válidas (como sempre permanecerão), e embora retomá-las seja mesmo um prazer, será que neste caso não valeria mais a pena uma boa sessão saudade de "L'Ultimo Baccio" no DVD?

Ou seja: será que a tal releitura americana seria boa o suficiente para fazer por merecer nossa ida aos cinemas?

O primeiro bom motivo para isso é que o roteiro da versão americana é assinado pelo prestigiado Paul Haggis, recentemente aclamado por "Menina de Ouro (2004)" e "Crash - No Limite (2004)" - no qual além de roteirista foi também diretor.

Diante da seriedade que o nome de Paul Haggis impõe, associoada ao material original de qualidade, as nossas expectativas naturalmente crescem...

A sinopse é essencialmente a mesma e caso você tenha perdido o italiano, aqui vai um resumo simplório: Michael (interpretado por Zach Braff, da série "Scrubs") se vê às voltas com seus trinta anos e uma profunda crise existencial que os acompanha. Dividido entre a juventude da qual de certo modo já começa a se despedir e a vida adulta que parece aterrisar com força total sobre si, Michael começa a questionar suas escolhas quando a namorada de longa data, Jenna (Jacinda Barrett, de "Poseidon"), descobre estar grávida.

Michael não se sabe ainda preparado para ser marido e pai e para complicar ainda mais, vê-se envolvido com a bela Kim (Rachel Bilson, da série "The O.C."), mais de dez anos mais jovem, que representa um universo leve e descompromissado do qual ele sente cada vez mais falta.

Não bastasse seus próprios dilemas emocionais, Michael acompanha também os conflitos vividos por seus amigos e pelos pais de Jenna. São gerações diferentes, mas com dilemas parecidos sobre o amor, a liberdade, a maturidade e as muitas alegrias e dificuldades dos relacionamentos afetivos.

O papel central, Michael (o Carlo do longa original), é defendido com competência por Braff, que merece destaque desde "Hora de Voltar" (2004), que roteirizou, dirigiu e estrelou. Talvez o Michael de Braff não seja páreo para o Carlo do belo Stefano Accorsi, mas não podemos culpá-lo por não ter o mesmo charme dos italianos, que como escreveu o Bernardo, até quando são feios, são bonitos.

E o inegável carisma de Accorsi é parte essencial para a química do triângulo central que sustenta o filme.

Ainda assim, Braff é talentoso e se sai bem. O mesmo vale para Jacinda Barrett, a Jenna, que neste caso até pode, quem sabe, se comparar em beleza e graça à Giovanna Mezzogiorno, que interpretou o papel similar (Giulia).

Rachel Bilson, a Kim, mostra que pode dar conta de um bom papel nas telonas e convence na versão morena da lolita irresistível.

Ainda no elenco da adaptação estão nomes que merecem destaque como Tom Wilkinson, Blythe Danner e Cassey Affleck.

E não é que o filme é bom? Ainda que seja norte-americano, ainda que seu diretor e alguns de seus atores tenham mais experiência em tv do que em cinema (olha o preconceito...) e ainda que com a sombra do anterior que lhe ofusca, já que permanece superior.

A nova versão não tem aquele ingrediente delicioso que dá o incomparável gostinho à la italiana, mas ainda assim é um filme interessante: "Um Beijo a Mais" é sim uma doce surpresa e refresca idéias de um modo equilibrado e muitas vezes envolvente, com atores dedicados e um cuidadoso roteiro adaptado.

Então, a boa notícia é que embora a sessão do DVD original seja sempre uma boa pedida, a adaptação americana vale sim a pena e pode render quase duas horas de uma agradável sessão de cinema.

Por Fabiane Secches

The Last Kiss (EUA, 2006). Direção de Tony Goldwyn. Roteiro de Paul Haggis, adaptado de Gabrile Muccino. Com Zach Braff, Jacinda Barrett, Rachel Bilson, Tom Wilkinson, Blythe Danner, Cassey Affleck, Marley Shelton, Harold Ramis e elenco. Duração: 115 minutos. Site oficial: http://www.lastkissmovie.com/

* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 22/12/2006
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segunda-feira, 19 de março de 2007

O Bom Pastor


"O Bom Pastor" é um filme difícil. A começar pela sua duração. Quase três horas de uma trama complexa, lenta e arrasatada, que definitivamente não cativa o espectador médio (a maioria deixava a sessão de cinema entediada).

Na verdade, mesmo para quem aprecia filmes do gênero, "O Bom Pastor" não é exatamente envolvente, embora obviamente tenha seu valor, a começar pela primorosa pesquisa histórica que o antecedeu.

Robert de Niro trabalhou nele por uma década antes de levar o filme para as telas. A riqueza de detalhes, o compromisso com a qualidade cinematográfica e a escolha criteriosa de seu elenco salvam "O Bom Pastor" de ser apenas cansativo.

Matt Damon ("Os Infiltrados", 2006), mais uma vez, prova seu talento ao interpretar Edward Wilson, versão cinematográfica de James Jesus Angelton, um dos responsáveis pela fundação da CIA. Wilson, antes um dedicado e brilhante aluno de Yale, é convidado a participar da sociedade secreta Skull and Bones, fraternidade com o objetivo de preparar os líderes mundiais do futuro.

Discreto, leal e inteligentíssimo, Wilson é considerado ideal para integrar o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), durante a 2ª Guerra Mundial, berço de formação da CIA.

Quando ainda estudava poesia em Yale, Wilson se apaixonou pela bela Laura, uma moça delicada e inteligente. A surdez de Laura não é suficiente para impedir a harmonia entre o casal, que só é quebrada quando durante uma festa da Irmandade, Wilson é seduzido por Clover (Angelina Jolie), irmã de John (Gabriel Matcht) e filha do Senador Russell (Keir Dullea), ambos integrantes da sociedade.

Quando se conhecem, Clover não esconde a que veio: logo de cara, confessa que procura pelo marido perfeito. Dito e feito, engravida de Wilson, obrigando-no assim a se casar com ela e romper definitivamente com Laura. Se a vida imita a arte? Foi também nesta época que Angelina Jolie engravidou do namorado Brad Pitt e por esta razão os tablóides estavam constantemente interessados em acompanhar os sets de filmagem de "O Bom Pastor".

Pois bem. Logo no dia de seu casamento, Wilson já é convocado para se mudar para Londres e integrar o OSS, ao que ele prontamente aceita, negligenciando sua nova família por amor ao seu país. Assim, não vê o filho nascer e só retorna para casa seis anos mais tarde. E, mesmo assim, permanece ausente por conta do trabalho misterioso que o suga até a alma e lhe faz um homem com "coração de pedra".

O filme também percorre a temática da relação entre pai e filho: Wilson é um homem de extrema lealdade a seu país não apenas por princípios, mas também por conta de um trauma que sofreu ainda na infância. Seu pai cometeu suicídio quando ele era apenas uma criança após ser acusado de deslealdade pelos seus companheiros militares.

Mais tarde, Wilson vê seu filho (interpretado quando adulto por Eddie Redmayne), que cresce intrigado com tantos segredos e acaba se encantando também pela agência, convidado para fazer parte dela.

Embora seja sim competente em ambas empreitadas, eu ainda acho que de Niro é melhor ator do que diretor, quando preenche a tela com sua intensidade dramática penetrante e seu enorme e inegável carisma. E Angelina Jolie... bem, eu também a considero melhor humanista do que atriz, embora em "O Bom Pastor" ela não esteja em seus piores dias.

"O Bom Pastor" é um suspense dramático que retrata a época e os bastidores da Guerra Fria com esmero. E uma de suas maiores qualidades é, sem dúvida, seu elenco de estrelas, que recebeu o Urso de Prata em Berlim pela Contribuição Artística. Destaque para Matt Damon, claro. Mas também para de Niro, sempre ótimo, que interpreta uma ponta importante como o General Bill Sullivan, assim como Alec Baldwin (que também esteve em "Os Infiltrados" com Damon), muito bem no papel de Sam Murach.

Também brilharam Willian Hurt, como o diretor Philip Allen, Michael Gambon como o professor Dr. Fredericks, Timothy Hulton como Thomas Wilson e Billy Crudup como Arch Cummings. Até mesmo o ator Joe Pesci, afastado há muito das telas, faz uma ponta como o italiano Joseph Palmi.

Em seu segundo longa, de Niro traz um projeto sério e ambicioso, obviamente interessante e bem dirigido, mas também um tanto apático.


Por Fabiane Secches

O Bom Pastor ("The Good Sheperd", 2006, EUA). Direção de Robert de Niro. Roteiro de Eric Roth. Com Matt Damon, Willian Hurt, Alec Baldwin, Michael Gambon, Timothy Hulton, Billy Crudup, Angelina Jolie, Joe Pesci e elenco. Duração aproximada de 167 minutos. Site oficial: http://www.thegoodshepherdmovie.com/




domingo, 18 de março de 2007

Maria Antonieta


Eu preciso começar esta crítica com uma ressalva honesta: adoro Sofia Coppola. Adorei "As Virgens Suicidas" (1999) e adorei especialmente "Encontros e Desencontros" (2003).

Com seu breve e denso currículo, a filha de Francis Ford Coppola esbanja talento genuíno e mostra que, embora tenha um traço comum por toda sua obra - seu olhar sensível, sua postura crítica diante do óbvio e sua refinada alma cinematográfica - é capaz de transitar em universos muito diferentes com a mesma competência: do subúrbio norte-americano dos anos 70 em seu primeiro longa para o cenário ultra-moderno de Tóquio no segundo, e agora uma biografia polêmica, com toda a pompa que um grande filme de época tem direito, mas sob um ângulo completamente inovador.

Sim, "Maria Antonieta" conta a história/estória da lendária rainha da França que ficou imortalizada pelos livros como um símbolo de frivolidade que levou a monarquia à decadência e foi decaptada depois da Revolução Francesa.

Mas, como se espera de Sofia, com sua leitura perspicaz da alma feminina, a sua Maria Antonieta é muito compreendida, e revela o lado humano da vida da rainha, suas qualidades e suas dificuldades. Esqueça a História tão quadrada que a crucifica: você vai se sentir solidário a ela.

Ainda que o grande mérito esteja no roteiro e na direção de Sofia, é preciso ser justa com a atuação da atriz Kirsten Dunst (que também atuou em "As Virgens Suicidas"). Kirsten está realmente ótima no papel e dá conta do recado sem decepcionar. Seu carisma, sua beleza e até mesmo a sua fragilidade nos ajudam a entender que Maria Antonieta era apenas uma adolescente (com apenas quatorze anos) quando se casou com o delfim Luís Augusto, que mais tarde se tornou Luís XVI, rei da França, e enfrentou maus bocados desde que deixou para trás seu país natal, a Áustria, e teve de viver longe de suas raízes e de sua família.

Luís XVI tinha notórias dificuldades sexuais e demorou oito anos até que seu casamento fosse consumado e Maria Antonieta pudesse dar a luz à sua primeira filha. Durante esses anos todos, Maria Antonieta foi vítima de todo tipo de pressão tanto do reino francês como do reino austríaco, assim como do julgamento implacável de todos que a cercavam: acusavam-na de frígida e de estéril e atribuíam a ela os problemas sexuais do rei.

A vida em Versalhes era muito luxuosa, mas também muito rígida, e a solidão que Maria Antonieta experimentou em meio a cerca de quatro mil pessoas (que viviam no palácio na época) é sufocante para os espectadores em muitos momentos. Jovem, linda, cheia de vida, adorava artes e festas, diferentemente de seu marido, que preferia caçar e era um tanto mais caseiro. Ainda assim, a convivência entre ambos parecia ser de amizade e respeito.

Com o tempo, Maria Antonieta cercou-se de amigas nem sempre bem vistas pela nobreza nem pelo povo francês. Com a construção do Petit Trianon em Versalhes, acabou preferindo a privacidade e a liberdade de viver em um espaço menor e sem tantas pompas do que no grande palácio. Teve uma vida alegre e simples. Gostava de viver no jardim, de ópera, e embora apreciasse moda e tivesse uma queda por sapatos (fiquem atentos para a referência do all star, deliciosa brincadeira de Sofia), também era capaz de viver feliz com mais simplicidade.

A edição do filme é interessante, a fotografia é um must, a trilha sonora é improvável e, com certeza, contribui imensamente para o tom cool de "Maria Antonieta".

O figurino é tão deslumbrante que o Oscar não teria outra opção se não premiá-lo com toda justiça, como de fato ocorreu. A direção de arte merece destaque e as cenas filmadas em Versalhes são uma viagem ao tempo. Um banquete visual completo. O baile em comemoração ao casamento de Luís e Maria Antonieta foi realmente gravado no famoso Salão dos Espelhos, fechado ao público para restauração. E os jardins de Versalhes são um espetáculo à parte...

Toda a beleza do lugar é ostentada no filme, todos os excessos preenchem a tela: as roupas, as jóias, os penteados, a alta gastronomia, as festas e as bebidas. A exuberância do modo de vida de Versalhes é ofuscante e as cores que saltam da tela, o cor de rosa das roupas de Maria Antonieta, o dourado da decoração do palácio, o vermelho das frutas, o branco da sua pele, tudo é muito intenso. Nada em "Maria Antonieta" é morno, apenas a relação entre Rei e Rainha.

Mas, em contraste ao brilho de Versalhes, está a angústia interior de Maria Antonieta, o vazio que a assombra, e que nos é apresentado de maneira suave, sem alardes. Se tudo é explícito demais quanto à forma, Sofia faz questão de opor seu enfoque do conteúdo, abordado com sutileza, embora profundamente. E aqui, a diretora acerta novamente ao não mastigar seus argumentos, em não exagerar nos diálogos didáticos e em economizar no panfletarismo óbvio..

Claro que o filme é partidário. É uma visão um tanto mais simpática e suave do que a que tradicionalmente conhecemos de Maria Antonieta. Mas, até por isso, muito mais rica, porque muito mais humana, sem radicalismos que nos afastam da verdade.

A historiadora Evelyne Lever foi consultora técnica de Sofia, que adquiriu os direitos para "Maria Antonieta" em 2000, e se baseou na biografia de Antonia Fraser.

O elenco como um todo está muito bem: Jason Schwartzman (do ótimo "A Garota da Vitrine", 2005) convence como o apático Luís XVI. Rose Byrne representa equilibradamente a Duquesa de Polignac, amiga inseparável de Maria Antonieta. Asia Argento vive a polêmica Madame du Barry, Rip Torn é o Rei Luís XV e Steve Coogan, o Embaixador Mercy. Ainda, Judy Davis interpreta com a competência habitual a Condessa de Noialles.

Alguns criticaram as elipses de tempo em "Maria Antonieta". Eu as achei muito mais apropriadas do que se o filme tivesse a pretensão de narrar todos os episódios vividos pela rainha. Sofia nos poupa até mesmo de um final desnecessariamente sensacionalista, embora continue dramático. Ela tem uma noção exata de até onde deve ir para não comprometer sua proposta. Por esta razão, eu a admiro ainda mais.

Eu realmente adorei "Maria Antonieta" em cada detalhe e acho sinceramente que quem considera que Sofia esteve tão atenta à estética que se esqueceu do conteúdo, na verdade, não compreendeu a alma do filme. É de propósito que o primeiro é explicíto e o segundo é discreto. Afinal, como disse a Condessa de Noialles em certo momento: "This, madam, is Versaille".


Por Fabiane Secches

Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006, EUA/FRA/JAP). Direção e roteiro de Sofia Coppola. Com Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Steeve Coogan, Rip Torn, Asia Argento, Judy Davis, Rose Byrne e elenco. Duração aproximada de 123 minutos. Site oficial:www.marieantoinette-movie.com

terça-feira, 13 de março de 2007

Letra e Música

Que Hugh Grant é o crème de la crème das comédias românticas, com seu irresistível charme desalinhado e seu afiado senso de humor britânico, isso ninguém pode negar.

Que Drew Barrymore é capaz de preencher qualquer tela com seu carisma e com seu timing cômico, tampouco.

Então "Letra e Música" começa acertadamente com a escolha do par romântico central, que além do talento, também tem a tal química essencial para que um filme do gênero funcione bem.

Mas, verdade seja dita, "Letra e Música" é muito mais comédia do que romance, a começar pelo seu impagável clipe de introdução, breguíssimo, que arranca risadas logo de cara - e conquista a simpatia definitiva do espectador em poucos minutos na sala de cinema.

Aliás, o clipe anos 80 é, sem dúvida, o ponto alto do filme. Isso não quer dizer, no entanto, que tudo que venha depois seja um desperdício completo. Não é.

Os mocinhos são duas pessoas talentosas, mas cheias de traumas e medos, aterrorizadas pelo fracasso que as assomba depois de anos vivendo de migalhas do que foram - e do que poderiam ter sido. Essa temática em si é suficientemente interessante.

Alex Fletcher (Hugh Grant) é ex-integrante da banda POP, sucesso de vendas e de audiência nos anos 80. Depois da ruptura da banda, Fletcher tentou seguir carreira solo e chegou a lançar um cd, que foi um fiasco total. Depois disso, desistiu da carreira e passou a viver, conformado, dos direitos autorais das músicas antigas e de modestos shows em parques temáticos e encontros de turma, com a ajuda de seu fiel empresário Chris Riley (Brad Garett, da série "Til Death").

Sophie Fischer (Drew Barrymore) escreve material publicitário para o spa dirigido pela irmã Ronda (Kristen Johnston), além de poesias e textos esparsos para publicações pouco lidas, depois de ver seu sonho como promissora escritora ser destruído pelas duras críticas do professor Sloan Cates (Campbell Scott), com quem também teve um desastroso caso amoroso.

Sophie fica encarregada de cuidar das plantas de Alex (argumento fraco) e os dois se conhecem em um momento crucial da vida dele, quando Cora Corman (Haley Bennet), uma bem sucedida cantora teen (mix de Britney Spears e Christina Aguilera) que é fã de Alex, então o convida para compor uma música para seu novo cd.

Alex não pode recusar a oportunidade, que é sua grande chance de reencontrar o sucesso, mas precisa de um letrista para ajudá-lo. É aí que Sophie entra em ação, com (excessiva) resistência, mas para enfim compor a dupla ideal de letra e música.

O roteiro força a mão muitas vezes, e poderia ser mais criativo em alguns momentos. Mas também tem piadas e cenas verdadeiramente engraçadas, especialmente as de Hugh Grant dançando tão desajeitado...

O mérito do filme de Marc Lawrence (de "Miss Simpatia") - que o escreveu e dirigiu - não é o seu roteiro. Há sim uma boa idéia, além de uma crítica ao ridículo da qualidade musical pop dos dias de hoje, mas ambas são apenas medianamente desenvolvidas. Mas há, sobretudo, uma escolha criteriosa de seus protagonistas. O mesmo filme sem Hugh Grant seria apenas chato.

Drew Barrymore também empresta a graça que faltava e, assim, "Letra e Música" se eleva e o saldo final resta positivo, apesar dos apesares.

Destaque ainda para a apropriada, envolvente e divertida trilha sonora especialmente criada para o filme - definitivamente um charme à parte.

Por Fabiane Secches

Letra e Música (Music and Lyrics, EUA, 2007). Direção e roteiro de Marc Lawrence. Com Hugh Grant, Drew Barrymore, Brad Garrett, Kristen Johnston, Haley Bennett, Campbell Scott e elenco. Duração aproximada de 96 minutos. Site oficial: http://musicandlyrics.warnerbros.com/

Scoop - O Grande Furo


Enfim estréia esta semana no Brasil o novo filme de Woody Allen. Os fãs do diretor estão em polvorosa aguardando pelo seu segundo filme da anunciada "nova" fase européia do diretor.

Bem, desde "Match Point" (2005) eu tenho defendido que esta "nova" fase, na verdade, não existe. O que existe é uma genialidade ímpar de surpreender com algo realmente original, mas sem deixar de ser autoral. O denominador comum sempre esteve lá.

Se Allen de certo inovou com o sofisticado "Match Point", surgindo daquela vez com um elaborado suspense dramático, agora, embora ainda em Londres, o diretor retorna sem cerimônias ao ambiente familiar de comédia romântica escrachada com elementos teatrais e fantásticos. E, com isso, dá o nó em alguns críticos que anunciavam o nascimento de um novo momento cinematográfico para Woody Allen na sua era londrina.

Também está de volta às telas o próprio Allen, afastado há três anos de seus filmes como ator, e em posição de destaque no triângulo das personagens centrais. Do filme anterior permanece, bem mais suavemente colocado, o cenário britânico, e a sua nova musa, a sempre ótima Scarlett Johansson, em papel completamente diferente. Aqui ela continua a moça bonita da história, mas desta vez cômica. Sua sensualidade natural, sempre pulsante, está escondida atrás de um óculos de grau e roupas desajeitadas (exceção para a cena do maiô vermelho, com modelito digno de diva, mesmo sem fazer o menor esforço para ser fatal, e por isso mesmo o sendo como poucas são!).

O "mocinho" da vez é o australiano Hugh Jackman, que se saiu muito bem, mas, justiça seja feita, também não era preciso muito. É uma tarefa árdua fazer uma sinopse de um filme típico de Allen sem que isso pareça um devaneio de loucura, mas, pois bem, eu vou tentar: Johansson é a americana Sondra Pransky, estudante de Jornalismo em Londres, que ao participar de um show de mágicas conhece de uma só vez o ilusionista Sid Waterman (Allen) e o fantasma (literalmente) do grande jornalista Joe Strombel (interpretado pelo inglês Ian McShane).

O recém-falecido Strombel, que em vida não perdia um furo de reportagem (o tal “scoop” do título original), consegue voltar algumas vezes da épica barca conduzida pela Morte (mais teatral impossível) para soprar a Sondra uma bomba que descobriu na além-vida: o insuspeito e charmoso milionário Peter Lyman (Jackman) poderia ser um perigoso serial-killer.

Sondra então conta com a ajuda do seu novo amigo Sid, a única testemunha de que o fantasma de Strombel é “real”, para tentar desmascarar Peter. Dividida entre os princípios éticos e a ambição profissional, Sondra ao mesmo tempo deseja proteger potenciais novas vítimas do suposto assassino e, de certo modo, também cobiça a sensação de ser glorificada como jornalista ao esclarecer o mistério.

Esta jornada arriscada, em meio a truques de mágica e cartas de tarô, rende muitas trapalhadas e risadas fáceis, mas não óbvias, já que os diálogos de Allen quase sempre vão além do lugar comum.

Em alguns momentos, Sid chega a ficar cansativo com piadas repetidas (e eu que não gosto de mágica, tenho esse agravante). Mas não que isso realmente comprometa o charme de “Scoop”.

Pois então, Sondra se aproxima de Peter para assim descobrir informações privilegiadas e acaba, como você imagina, envolvida emocionalmente. Ficamos o tempo todo oscilado entre o culpado e o inocente, sem que isso seja, no entanto, a cereja do bolo de “Scoop”, já que o romance entre os dois não chega a empolgar.

Alguns dizem que faltou química entre Johansson e Jackman, mas eu ainda acredito que o clima relativamente morno entre os dois seja proposital para que não nos percamos onde o filme não é.

Não importa como a trama se resolva, de nenhum modo seria de fato surpreendente. O que não rouba do filme o mérito de reservar algumas (pequenas) surpresas interessantes ao espectador.

A fina ironia continua presente, como sempre esteve, e tenho de dizer que mesmo tendo assistido ao britânico "Scoop" na Champs Elysées em Paris, em clima mais europeu impossível, para mim o diretor continua um nova-iorquino incorrigível, com uma enorme maçã dentro do peito.

Sei que vem por aí "Cassandra's Dream", mais uma produção londrina de Allen, desta vez com Colin Farrell (quem diria!), mas Nova York nunca foi propriamente um retrato da América, então Allen também nunca fez cinema propriamente americano. Nova York é um continente à parte, e não fica tão distante assim desta Londres pela qual o diretor tanto se encantou.

O próprio Allen faz piada com a mudança de cenário dizendo, no filme, que adoraria viver em Londres, onde se sente ótimo, mas o que não se acostuma mesmo é com a mão inversa de direção. Como sempre, o melhor de Allen continua nas sutilezas. O resto é só desculpa - e diversão em grande estilo, mesmo quando o filme é apenas mediano.

E é verdade que eu sou suspeita, preciso admitir. Duplamente suspeita, aliás. Como fã de Allen e fã de Johansson, o meu olhar é obviamente tendencioso. Mas a minha rendição é que não sou a única, então talvez nós, fãs da dupla (juntos ou separados), talvez tenhamos alguma razão em nossas paixões, não é mesmo?

Por Fabiane Secches

Scoop - o Grande Furo (Scoop, Inglaterra/EUA, 2006). Direção e roteiro de Woody Allen. Com Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Ian McShane e Woody Allen. Duração aproximada de 96 minutos. Site oficial: http://www.scoopmovie.net/



* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 05/12/2006.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Fica Comigo Esta Noite

Esta semana assisti à comédia romântica "Fica Comigo Esta Noite", que já passeou pelos cinemas do Brasil e agora está disponível em DVD. É o segundo filme do talentoso João Falcão, que já arrancou elogios com seu "A Máquina" (2005) e sua sólida carreira no teatro.

Falcão aqui repete alguns ingredientes de seu longa anterior: "Fica Comigo Esta Noite" também é uma adaptação teatral (a peça foi dirigida por Jorge Fernando e estrelada por Deborah Boch e Luis Fernando Guimarães) e também conta com Gustavo Falcão no elenco (mais uma vez, ótimo no papel). O roteiro, baseado em texto de Flávio de Souza, foi escrito pelo próprio Falcão, com colaboração de sua esposa Adriana Falcão e de Tatiana Maciel.

Alinne Moraes, belíssima como sempre, interpreta Laura, que se apaixona por Edu (Vladimir Brichta) às vésperas de se casar com Tomáz (Rodrigo Penna).

Laura desiste do ex-noivo e acaba se entregando de vez ao súbito novo amor. O casal parece ter sido feito um para o outro, com direito a poesia de Fernando Pessoa e casamento de véu e grinalda. Mas, com o passar do tempo, os desentendimentos naturalmente se acumulam e os dois enfrentam um momento desgaste, que culmina em crise no relacionamento. E é justamente neste ponto que Edu morre repentinamente. Mas não que seja exatamente uma surpresa, já que a sua morte é anunciada por ele mesmo, como narrador em off, desde o começo do filme (e como demora mais do que o necessário para ocorrer, quando finalmente acontece, estamos aliviados, e não chateados como deveria ser).

Pois então que Edu não se conforma por ter partido para o "mundo dos mortos" sem se entender com Laura, já que perderam os últimos minutos de suas vidas juntos em uma discussão calorosa e hostil.

Com a ajuda do Fantasma do Coração de Pedra (Gustavo Falcão, a cara de Johnny Deep), personagem que o assombra desde a infância no casarão antigo onde vive, Edu vai tentar fazer um último contato antes de partir para o "terceiro mundo".

Do outro lado, Laura vai contar com a ajuda de Mariana (Clarice Falcão)/Dona Mariana (Laura Cardoso), que além de um anjo da guarda em fase de experiência, é também a musa do tal Fantasma do Coração de Pedra.

A fotografia é adequadamente sombria, o elenco é, em geral, competente (com destaque ainda para Milton Gonçalves e Marly Bueno), o roteiro é engraçadinho e desde a abertura tem ar de graphic novel, além de estar repleto de referências literárias e cinematográficas (lembram de "Os Fantasmas se Divertem"? E da crônica do Luis Fernando Verissimo na qual o marido tem a mania de simular sua própria morte e, no dia que morre de fato, sua viúva não consegue acreditar, esperando pela revelação de que era apenas mais uma peça que ele lhe pregara?).

Em muitos momentos, o filme, mais do que bem humorado, é de uma delicadeza digna de nota, como nas memórias de infância de Edu com Dona Mariana, ou sozinho em seu quarto aterrorizado pela solidão. E, se certamente esbarra em muitos clichês ("como é que alguém pode ter coragem sem antes sentir medo?"), de outro lado oferece uma estória que vai além do romance água com açúcar tradicional, com direito até a questionamentos (sempre com humor) aos princípios católicos e espíritas, assim como de outras religiões.

Não é o melhor filme nacional a que já assistimos, é teatral demais e tem momentos cansativos. Mas, ao todo, consegue ser divertido e interessante (destaque também para sua trilha sonora).

É verdade que o roteiro peca em alguns pontos, mas também tem um ar charmoso a la Jorge Furtado que faz a diferença.

Além disso, o filme tem seu mérito por tratar de temas desconfortáveis, como a morte, de uma maneira despudorada e criativa.

E Falcão está apenas começando, imaginem...

Por Fabiane Secches

Fica Comigo Esta Noite (BRA, 2006). Direção de João Falcão. Roteiro de João Falcão, Adriana Falcão e Tatiana Maciel, inspirado na peça de Flávio de Souza. Com Alinne Moraes, Vladimir Britcha, Gustavo Falcão, Clarice Falcão, Laura Cardoso, Milton Gonçalves, Marly Bueno, Rodrigo Penna e elenco. Duração aproximada de 74 minutos. Site oficial:
www.filmes.net/ficacomigoestanoite

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Borat!


Se o polêmico Borat não fosse um personagem, ele estaria longe de ser tão querido.

Borat, se fosse real, certamente estaria na cadeia, ou em um manicômio. E estaria a anos luz de ser engraçado, a não ser por sua tolice quase ingênua. Anti-semita, racista, incestuoso, machista, leviano, inconseqüente e sem nenhuma vergonha na cara, Borat só não seria cruel porque seria patético.

Mas Borat não é real. É um personagem criado por Sacha Baron Cohen, respeitado comediante britânico, graduado em História pela Universidade de Cambridge e consagrado na Inglaterra com o seu "Da Ali G Show" (onde a idéia de Borat nasceu).

Então é diferente. Borat foi criteriosamente elaborado, e sem nenhuma ingenuidade. Portanto, o filme carrega uma mensagem consigo: Borat faz, revestido de humor, uma crítica às avessas cada vez que fala sobre judeus, mulheres, gays e outras vítimas de preconceito, ao se ridicularizar constantemente.

O nome completo é "Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan" e se apresenta como um "documentário", no qual Borat é o segundo melhor jornalista do Cazaquistão, que parte para uma viagem aos "Estados Unidos e América" (US and A, como ele diz, em um de seus crassos e famosos erros da língua inglesa) para estudar a cultura norte-americana e, assim, trazer soluções novas para melhorar a vida de seu país.

Ora... se isso não é uma enorme ironia, o que mais poderia ser?

O Cazaquistão, na vida real, sentiu-se muitíssimo ofendido (o que até se compreende), ao ser retratado de um modo absolutamente retrógrado, preconceituoso e provavelmente injusto. Mas o que o país não percebeu foi que a grande crítica de Borat paira sobre a terra do Tio Sam, sempre tão ufanista!

Ao chegar nos Estados Unidos, Borat logo perde seu foco, ao se apaixonar pela atriz Pamela Anderson quando a vê em um capítulo de "Baywatch" na tv. Então a sua pretendida reportagem fica para segundo plano e nós acompanhamos a busca pela sua “amada” de Nova York até a Califórnia.

No meio do caminho, muitas trapalhadas dão o tom, com tapas com luva de pelica na hipocrisia americana: hi five!!!

No entanto, o grande destaque que o filme tem recebido não é apenas o de confrontar, e sim o de arrancar muitas risadas (e mais risadas, seguidamente), despudoradamente.

Se Borat é de fato hilário em muitos momentos, também é verdade que se repete e fica cansativo outras vezes,ainda que o longa tenha menos de uma hora e meia de duração. E não será a tal sunga amarela usada de um modo nada convencional que irá agradar ao espectador mais exigente, nem as cenas escatológicas de Borat e seu amigo gorducho pelados lutando pelo quarto e correndo pelo hotel.

Não é o pastelão de Borat que faz dele o sucesso que é.

O filme, que hoje já é um fenômeno mundial, custou apenas US$ 18 milhões e se pagou logo na sua estréia, que aconteceu em circuito reduzido (batendo o então recordista “Fahrenheit”, de 2004, neste contexto), ao arrecadar mais de US$ 26 milhões logo de cara.

E o que mais existem são curiosidades: as autoridades policiais, incluindo o Serviço Secreto, foram acionadas durante as filmagens quase cem vezes (mesmo!) e em uma delas, Sacha foi interrogada sem deixar seu personagem, fazendo se passar pelo próprio Borat, como tem repetido em entrevistas, inclusive na CNN.

Muitos o equiparam ao fenômeno Monty Phyton, mas, embora seja uma referência apropriadamente revolucionária, eu ainda acho que Borat está mais para a turma do "Pânico na TV" com as suas versões do Lula e do Clodovil desfilando em Brasília, como se fossem os próprios... com a diferença, claro, que Borat não ri de suas trapalhadas. Incrível a concentração de Sacha no papel.

E é preciso dizer para quem ainda o acusa de anti-semita que prestem atenção ao personagem quando ele fala a sua "língua nativa". Não, não é cazaque. É hebraico. Como vocês vêem, o filme tem mais a dizer do que o óbvio. Afinal, Sacha, ele próprio, é judeu.

Já a expressão “Jak sie masz?” é polonesa e quer dizer “Como vai você?”. Além de polonês, hebraico e um inglês capenga, também há armênio no filme.

Dizem que ou se ama Borat, ou não se compreendeu. Pode ser. Eu acho uma afirmação um pouco apaixonada demais. Mas devo admitir que me diverti bastante com ele, especialmente com o seu péssimo domínio do inglês e com a quantidade de vezes que ele se refere às "prostitutes"... sem dúvidas, uma figura!

Se ele força a mão algumas vezes, isso não parece ter sido empecilho para Sacha arrematar o Globo de Ouro de Melhor Ator (Comédia), nem de abocanhar uma indicação ao tradicional prêmio da Academia, o Oscar, como Melhor Roteiro Adaptado. Quem diria...

Grande parte dos fãs de Borat não é tão criterioso, e gosta dele pelas risadas fáceis trazidas pelo seu humor libertário, politicamente incorreto. Eu gosto dele principalmente por ser transgressor e reinventar, com muita ousadia, o já consagrado humor britânico.

Afinal, já estávamos cansados de ver as mesmas coisas nas telas quando o assunto é comédia.

Sacha também foi roteirista do filme ao lado de uma trupe - e quanto dos diálogos não foram puro improviso do ator? Ele, inclusive, está sendo processado por uso indevido de imagens, já que, em seu “documentário”, apenas Borat e seu núcleo são personagens. As outras pessoas são reais, e as suas reações também.

A direção é de Larry Charles, que já atuou e escreveu episódios de séries bem sucedidas como “Seinfeld” e “Entourage”.

Se você está ansioso pela estréia nacional (prevista para 23 de fevereiro) e mal pode esperar para tirar a teima, existem muitos aperitivos no youtube, alguns especialmente engraçados, como Borat ele mesmo em entrevista no David Letterman e no Tonight Show, assim como vídeos de Borat tendo lições de habilitação nos Estados Unidos, Borat em discurso para os republicanos, Borat tendo aula de etiquetas, enfim...

Depois de um tempo, tudo é quase igual, embora seja fato que as pessoas continuam rindo até das piadas repetidas, porque Borat, afinal, já virou um hit.

Vejam o site “oficial”, devidamente amador. Vale a pena a visita para saber mais.

Vá aos cinemas para rir, mas com discernimento. Não é o preconceito que faz do filme engraçado, por favor. É a maneira de Sacha tratar esse preconceito e, principalmente, os preconceituosos. Aí sim está o verdadeiro valor desse filme que já é, no mínimo, um marco na história do cinema moderno. Hi five!!!

Por Fabiane Secches

Borat! (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, EUA, 2006). Direção de Larry Charles. Com Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell e Pamela Anderson. Roteiro de Sacha Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mayzer, baseado em criação de Sacha Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham e Todd Phillips. Duração aproximada de 84 minutos. Site oficial:
http://www.borat.tv/

* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 12/02/2007.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Dreamgirls


Cá entre nós, quando eu soube que seria lançado um musical que a um só tempo traria Eddie Murphy, Beyoncé e uma ex-candidata do "American Idol" no elenco, eu não fiquei exatamente entusiasmada.

No entanto, "Dreamgirls" vem justamente para quebrar preconceitos e seu mérito já começa aí.

Eu não gostava de Eddie Murphy antes do filme, e tenho que confessar que continuo não gostando depois. Ele é arrogante, antipático e força a barra para ser engraçado em grande parte das vezes.

Mas, não posso ser injusta: desta vez, o Tira da Pesada está impecável em seu papel e, definitivamente, provou ao mundo (eu incluída) que é muito mais do que um ator mediano de comédias duvidosas. A escolha de Murphy para viver o inovador cantor James "Thunder" Early foi além de corajosa - foi acertada.

A cantora Beyoncé, uma das protagonistas de "Dreamgirls", quem diria, revelou que sabe atuar também - e sua personagem é mesmo importante para o caminho de sucesso que o filme tem traçado (diga-se de passagem: sucesso de bilheteria e de crítica).

Também está lá o ótimo Jamie Foxx, que já fez bonito em outro longa com apelo musical, Ray (2004). Foxx interpreta Curtis Taylor Jr., empresário que busca por novos talentos para entrar no mundo da música na Detroit dos anos 60.

Mas, quem de fato merece os louros é a estreante Jennifer Hudson. Sim, ela mesma, a ex-aspirante a American Idol (desclassificada no programa) que nunca tinha feito cinema e disputou o papel com mais de 700 outras atrizes, sem privilégios.

E a danada dá um verdadeiro show nas telas ao interpretar Effie Withe que, ao lado de Deena Jones (Beyoncé) e de Lorrel Robinson (Anika Noni Rose), integra o trio de garotas que batiza o filme: "The Dreams".

É Effie quem tem a melhor voz (embora tenha também um temperamento difícil), mas quem vai ganhar destaque no trio e ocupar o posto principal é Deena - menos talentosa, mas estonteante.

Não se espante se a comparação com a trajetória do grupo "The Supremes" parecer óbvia - já que Florence Ballard também perdeu espaço para Diana Ross em situação bastante similar.

No entanto, o diretor Bill Condon nega qualquer relação mais estreita entre o grupo fictício e o real, embora as coincidências sejam tantas a ponto de nos fazer duvidar. Hudson, inclusive, dedicou o seu Globo de Ouro à Florence, que teve uma morte trágica ao cometer suicídio com apenas 32 anos.

O filme é mais uma vez sobre a fama volátil e efêmera, sedutora e destrutiva - um dos temas abordados também por Condon em "Chicago" (sucesso de 2002, do qual foi roteirista).

Embora a temática seja recorrente (e não apenas no currículo do diretor), o que eleva "Dreamgirls" a uma posição de destaque são, sem dúvidas, três fatores essenciais: as suas canções, o desempenho de seu esforçado elenco e a envolvente edição do filme.

Os binômios sucesso - fracasso, talento - beleza, alegria - tragédia estão todos lá, como usualmente, mas, embora quase exauridos, "Dreamgirls" sabe administrá-los sem perder o charme.

Se é verdade que eu me descobri, há poucos anos, uma apreciadora entusiasmada de musicais, minha inclinação a gostar deles não é indiscriminada: por exemplo, "O Fantasma da Ópera" (2004) é puro tédio para mim.

Por esta razão, fico à vontade para expressar minha opinião "descontaminada" sobre "Dreamgirls": sim, o filme faz por merecer cada uma de suas oito indicações ao Oscar (três dela como Melhor Canção) e traz uma estória com carisma, cor e luz. Está aquém da estupefação causada por "Chicago", é verdade, mas nem por isso deixa de ter seu valor.

Uma celebração musical, como vem sendo corretamente classificado, que se revela também (e principalmente) uma celebração do talento de seus atores, com interpretações dedicadas e apaixonadas - o que por si, já justifica a ida aos cinemas.

Por Fabiane Secches

Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho (Dreamgirls, EUA, 2006). Direção e roteiro de Bill Condon, inspirado em obra de Tom Eyen. Com Jennifer Hudson, Beyoncé Knowles, Anika Noni Rose, Eddie Murphy, Jamie Foxx, Danny Glover e elenco. Duração aproximada de 131 minutos. Site Oficial: http://www.dreamgirlsmovie.com/

* Estréia prevista para esta sexta-feira de carnaval, dia 16/02/2007.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

A Lula e a Baleia


Para quem gostaria de uma indicação de um bom filme disponível em DVD, recomendo o belo e sensível "A Lula e a Baleia", de Noah Baumbach, 2005.

Com bastante atraso, apenas nesta semana pude assistir a este drama familiar de nuances delicadas, mas de conteúdo substancioso, vencedor do Sundance Film Festival como Melhor Diretor (Drama) e Melhor Roteiro.

Com baixo orçamento (cerca de US$ 1,5 milhões), o nome poético de "A Lula e a Baleia" é apenas um dos seus encantos e se refere a uma escultura do American Museum of Natural History, que aparece ao final do filme e lhe dá significado ainda mais profundo.

Embora o roteiro seja inspirado na adolescência vivida pelo próprio Baumbach, se você é filho de pais separados, seja lá qual for o contexto, a catarse é inevitável. Falo por experiência própria.

Sem apelos excessivos, mas certeiro em seu alvo, "A Lula e a Baleia" narra a desintegração de uma família de classe média no Brooklyn, em Nova York, e os dramas pessoais enfrentados pelo ex-casal e seus dois filhos negligenciados diante dos acontecimentos.

A mãe, Joan (Laura Linney), é uma escritora iniciante em ascensão, enquanto o pai, Bernard (Jeff Daniels), é um escritor consagrado em declínio. O descompasso não se dá apenas na esfera profissional, mas sobretudo na vida a dois, esmagada por dezessete anos de convívio e muitas mágoas acumuladas.

O filho adolescente Walt (Jesse Eisenberg) admira o pai e enxerga nele o verdadeiro retrato intelectual que deseja seguir, embora não seja propriamente o leitor ávido que demonstra. O caçula Frank (Owen Kline, filho do ator Kevin Kline), mais apegado à mãe, enfrenta uma pré-puberdade conturbada e demonstra mais interesse pelas aulas de tênis do que pela carreira acadêmica.

Com a separação, seguida pela guarda compartilhada dos filhos, a rotina de todos, inclusive do gato da família, atinge o desgaste máximo. Muitos subtemas de uma sinceridade e sutileza tocante emergem dos diálogos que incomodam de tão francos, e da interação dos personagens em situações comuns.

As fraquezas humanas são expostas, a decepção é paupável e a fotografia do filme contribui para a áurea acinzentada que cai como uma luva diante dos acontecimentos.

Sem grandes reviravoltas e lições de moral, "A Lula e a Baleia" é um daqueles filmes nos quais menos é mais - e não falo apenas do orçamento. É simples, mas não simplório. Muito longe disso.

O diretor coloca a (des)ordem familiar moderna sob os holofotes, mas questiona principalmente a vulgaridade de espírito que também pode estar presente, muitas vezes, nos maiores intelectuais, tão cheios de preconceitos. Sim, nem eles escapam de seus momentos como "filisteus".

Nenhum de nós escapa sempre ileso de nossa condição humana vulgar.

Além do roteiro com forte carga pessoal (e por isso também tão tocante) e da trilha sonora apropriada (com direito a Pink Floyd), o grande mérito de "A Lula e a Baleia" está em seu elenco, tanto nas crianças como nos adultos, todos com atuações sérias e bem equilibradas, inclusive os coadjuvantes Anna Paquin e William Baldwin (ele mesmo).

Apoiado por muitas referências nas entrelinhas, Baumbach constrói uma narrativa sem adornos, e embora seja direto, não se pode dizer que é óbvio. Diz-se que com esse filme, o diretor revisitou seus traumas e esteve sempre ele mesmo como seu foco principal. Seja como for, não tem como não atingir a todas as famílias desfeitas, porque, de alguma forma, todos os casais e ex-casais se parecem, e mais ainda, parecem-se tanto em suas feridas e cicatrizes os filhos de pais separados, mesmo dos mais civilizados, carregando consigo este denominador comum que "A Lula e a Baleia" traz tão bem.

Disso, eu bem sei...

Por Fabiane Secches

A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, EUA, 2005). Direção e roteiro de Noah Baumbach. Com Jeff Daniels, Laura Linney, Owen Kline, Jesse Eisenberg, Halley Feiffer, Anna Paquin e William Baldwin. Duração aproximada de 81 minutos. Site oficial: http://www.squidandthewhalemovie.com/

Pecados Íntimos


“Pecados Íntimos”, novo filme do talentoso Todd Field (de “Entre Quatro Paredes”, 2001), chega aos cinemas para incomodar. Mas, claro, quando se trata do questionador Field, este incômodo vem na melhor acepção da palavra.

O filme recebeu diversas indicações a diversas premiações: não apenas teve o reconhecimento do Globo de Ouro e BAFTA com indicações importantes, mas também do Sindicato das Mulheres Jornalistas da América, da Associação de Críticos de Nova York, de São Francisco e de Washington, assim como da Associação de Críticos Ingleses, além do "Satellite Awards" (premiação da imprensa internacional), entre muitos outros.

À premiação da Academia que se aproxima, o filme chega com três indicações ao Oscar: Melhor Atriz (Kate Winslet), Melhor Ator Coadjuvante (Jackie Earle Haley) e Melhor Roteiro Adaptado (de Todd Field e Tom Perrota, baseado em romance do próprio Perrota).

Embora possa se dizer que o filme escapa do formato cinematográfico tradicional, também é verdade que não é tão revolucionário assim em sua fórmula narrativa: “Pecados Íntimos” tem um inconfundível ar do premiado “Beleza Americana” (1999), do diretor inglês Sam Mendes (que, inclusive, é casado com Kate Winslet na vida real): também há aqui o narrador onisciente em off, trazendo comentários sofisticados sobre os acontecimentos. E há a mesma ironia, o refinado senso de humor (negro), que paira sobre a crítica à hipocrisia da sociedade norte-americana, representada no filme por uma pacata e arborizada cidade de interior.

Embora o foco central seja diferente, a referência trazida por Field é mais do que apropriada para a história que o diretor deseja nos contar.

“Pecados Íntimos” originalmente se chama “Little Children”. A infeliz tradução para português faz perder uma grande pista sobre o que o filme é. Não, “Little Children” não é sobre os pecados íntimos, é sobre pequenas crianças. Pequenas grandes crianças, aliás.

O filme traz uma estória entre pais e filhos. E se de novo poderíamos mencionar Sam Mendes aqui, já que em outro filme - “Estrada para Perdição” (2002) - passou também por este tema, é certo que, desta vez, a comparação (tanto de conteúdo como de forma) não seria justa. Field opta por um caminho completamente diverso, e ainda vai além.

Embora o universo infantil tradicional faça parte de toda narrativa, com playgrounds, brinquedos espalhados, carrinhos sendo empurrados, bebês embalados no colo e constantes referências às crianças de fato, não é sobre essas crianças que o filme deseja falar. Não. “Little Children” é sobre essas crianças grandes que conhecemos bem: os adultos da atual geração.

A sinopse mais detalhada ajuda a compreender: uma das personagens centrais, Sarah Pierce, é belamente interpretada pela inglesa Kate Winslet (do ótimo “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, 2004). Sarah é uma jovem adulta, casada com Richard (Gregg Edelman) e mãe de Lucy, uma linda e geniosa garotinha de três anos. Solitária desde que optou por deixar o trabalho para cuidar da filha, vive um casamento morno. Sarah até tenta se encaixar na vida de uma dona de casa comum, embora não tenha talento para isso. Inteligente e questionadora, sente-se um peixe fora d'água quando vai ao playground da vizinhança com Lucy e tem que conviver com outras mães tradicionais.

O que parece que vai ser apenas uma crítica ao casamento e à instituição familiar, depois transcende, o que é uma agradável surpresa para o espectador.

Pois bem. Freqüentam este mesmo playground, entre as mães usuais, o pai coruja Brad Adamson (Patrick Wilson, de “O Fantasma da Ópera”, 2004) com seu adorável filho Aaron, o que perturba as mulheres em volta, que suspiram por ele.

Brad é casado com Kathy (a belíssima Jennifer Connelly, de “Uma Mente Brilhante”, 2001) e é ela que ocupa o papel tradicional do homem da casa: enquanto Brad passa o dia solitário brincando com o filho em casa, no playground ou na piscina pública, Kathy passa o dia trabalhando como documentarista e sustenta toda família.

Brad e Sarah acabam por se aproximar e descobrir que entre eles há esse denominador comum, e depois de atraídos um pelo outro, usam a paternidade/maternidade como desculpa para encontros cada vez mais freqüentes.

Nesta mesma tranqüila cidade onde vivem, também está o perturbado Ronnie J. McGorvey (interpretado com talento por Jackie Earle Haley), um ex-prisioneiro que assediava crianças, exibindo-se para elas. Ronnie vive solitário ao lado de May, sua mãe protetora (Phyllis Somerville), e é naturalmente temido por toda vizinhança.

Logo no começo do filme, quando Ronnie é solto e uma reportagem a respeito é realizada na região, uma das mães aflitas diz que tê-lo morando em um local com tantas crianças é como ter um alcoólatra trabalhando em um bar: isso não acabaria bem.

Ronnie então é perseguido por todos, especialmente pelo ex-policial Larry Hedges (Noah Emmerich), o maior inconformado. Depois de ter sido afastado da Polícia após um tiroteio em um shopping que acabou mal, Larry está obcecado pela presença de Ronnie e quer garantir que um homem perigoso como ele jamais tenha paz o suficiente para abordar as crianças do local.

Pronto, o cenário da confusão está armado e “Pecados Íntimos” começa a entrelaçar as histórias e a aprofundar reflexões, com direito a citações de Madame Bovary e tudo o mais.

Depois de descobrir que seu marido está envolvido com pornografia na internet, e não muito entusiasmada com seu casamento, Sarah acaba se envolvendo com Brad. Ele, por sua vez, está cansado de ser submisso à esposa e parece gostar de se sentir um homem novamente, e não apenas um pai. Até aí, tudo bem: conseguimos compreender seus sentimentos e até nos solidarizamos com eles.

No entanto, à medida que Field penetra nos relacionamentos, percebemos que não, não é uma bandeira a favor da rebeldia aos costumes, é mais que isso. É um filme sobre a dificuldade de aceitar a vida adulta com todas as suas ocupações e preocupações.

Percebemos que Sarah e Brad não conseguem se conformar com seus novos papéis, mas são completamente resignados quanto a buscar, efetivamente, outros papéis. O caso extraconjugal é o máximo de ousadia que se permitem, e achando que esta atitude desvela não somente o apetite sexual, mas, sobretudo, o apetite de mudança, nós nos surpreendemos, enfim, ao perceber que não passa de uma fuga quase adolescente - e que jamais poderá ir a lugar algum, a menos que eles se tornem, de uma vez, adultos.

Mas não pensem vocês que a mensagem é mastigada para o espectador. Não, não. Field constrói um filme aberto, que permite várias leituras, embora nos conduza todo o tempo através das entrelinhas para esta interpretação final: as pequenas crianças do título não são Lucy e Aaron, são Sarah e Brad, e mesmo Richard e Kathy.

E as pequenas crianças do filme não estão correndo nos parques, ou sendo embaladas nos balanços, ou brincando na piscina... as pequenas crianças do título estão aprisionadas em seus corpos de adultos, como Ronnie, e, talvez por esta razão, ele não consiga se sentir sexualmente atraído por pessoas de sua idade - e aí esteja a verdadeira causa do seu comportamento deturpado.

Admito: esta é a minha livre interpretação sobre Ronnie, e pode ser psicanalítica demais, mas faz todo o sentido se juntarmos as peças do quebra-cabeça que Field nos oferece, uma a uma. Desde o começo do filme, com a tomada da casa de May e Ronnie, com as estátuas de crianças enfeitando a sala, e os muitos relógios que se somam a elas. É o tempo correndo, a vida adulta chamando, mas o desejo da infância que aprisiona. Desejo de proteção, de zelo, de descompromisso e pureza.

Ronnie, do alto de seus cinqüenta anos, nunca lavou uma louça, diz May temendo pelo futuro de seu filho depois que ela morrer. Brad, apesar de ter se formado advogado, nunca é aprovado no exame da ordem e à noite, quando sai para estudar na biblioteca municipal, na verdade nunca chega a entrar. Fica apenas observando os adolescentes fazendo manobras com seus skates. Sarah está decepcionada com o marido, mas nunca busca uma conversa madura com ele e, apesar de fisicamente presente para Lucy, está completamente distante da filha, do seu papel de mãe.

Quando Sarah chora e é consolada pela filha de três anos com um maduro “está tudo bem, mamãe”, os papéis completamente invertidos, a mensagem para mim já estava clara.

O clímax do filme acontece como um despertar. Primeiro, temos a sensação que podemos caminhar para um final trágico, como na referência de Madame Bovary. Então tememos pela vida de Sarah, de Brad e de Lucy. Mas, sem estragar o final do filme, posso assegurar: Field não estava interessado em chocar, ele estava interessado em incomodar. E é essa diferença que na maioria das vezes separa um mau de um bom filme.

Se “Pecados Íntimos” não é impecável, até suas imperfeições parecem ter sido premeditadas, de certo modo, para que o filme não fosse o que o filme não é. Para que a mensagem, ao final, não fosse tão amarradinha e óbvia. Para que o espectador se perdesse algumas vezes dentro da estória, e das subtramas da estória, e tenha a sensação de ter divagado mais do que o preciso, em uma sessão de mais de duas horas no cinema.

Mas sabe de uma coisa? A vida não é exatamente assim? Quando achamos que estamos na direção certa da compreensão e do auto-conhecimento, nós não aprendemos que ainda falta muito para se chegar lá? Em “Pecados Íntimos” acompanhamos a hesitação dos personagens e concordamos com eles algumas vezes, para depois, com uma visão mais ampla, enfim discordar.

Percorremos junto com os personagens a evolução dos seus dilemas até chegarmos a máxima que resume o filme: crescer dá trabalho.

Como já cantou Renato Russo: “você diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais... são crianças como você... o que você vai ser quando você crescer...”.

Se você não quer mais do mesmo, assista ao filme sem medo de ser feliz. Eu lhe asseguro: a reflexão que fica não é moralista, e é tão certeira que não tem como não mexer com você. Excelente!

Por Fabiane Secches

Pecados Íntimos (Little Children, EUA, 2006). Direção de Todd Field. Roteiro de Todd Field e Tom Perrota. Com Kate Winslet, Patrick Wilson, Jackie Earle Haley, Jennifer Connelly, Noah Emmerich, Gregg Edelman, Phyllis Somerville, Helen Carey, Mary B. McCan e elenco. Duração 130 minutos. Site oficial:
http://www.littlechildrenmovie.com/

* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 01/02/2007.

À Procura da Felicidade


Por mais que eu faça, vai ser difícil convencê-lo aqui, depois de ler a sinopse, que "À Procura da Felicidade" não é um filme piegas que apela deliberadamente para o sentimentalismo barato só para vender seu peixe.

Tudo bem. Eu já estive em seu lugar antes, e quando entrei na sala de cinema para assistir ao filme, não esperava nada diferente disso também. Mas eu me surpreendi. A começar pelos créditos. Porque desta vez a única informação que eu tinha sobre o filme era a sinopse da brochura do cinema (e, aqui entre nós, quando essas sinopses retratam fielmente pelo menos uma parcela do filme?). Então quando o nome de Gabriele Muccino apareceu embaixo de "diretor", eu pisquei para ver se tinha lido bem.

Sim, é ele mesmo, o ótimo diretor italiano por quem eu me apaixonei em “L'Ultimo Baccio” (2001), "O
Último Beijo" em português (se ainda não viu, veja: está disponível em DVD e foi o vencedor de Sundance em 2002) – aquele mesmo que inspirou o norte-americano "Um Beijo a Mais" (2006), que estréia em breve nos cinemas.

Há pouco tempo, em DVD, pude ver, também de Muccino, o drama "Recordati di Me" (2003) - em português, batizado de "No Limite das Emoções" (? e !). Foi quando comprovei que seu talento, de fato, não está limitado a um filme só. Então você há de me desculpar, mas, imediatamente, antes mesmo de começar, "À Procura da Felicidade" subiu dez pontos no meu conceito e eu já queria gostar dele quando Happyness, no título original, apareceu com Y. O além-óbvio já despertava aí.

É verdade que eu ainda estava reticente sobre Will Smith - embora soubesse que ele é um ator carismático capaz de preencher a tela em superproduções, como nos dois "Men in Black" (2000 e 2002), "Bad Boys II" (2003) e "Eu, Robô" (2004). Mas é aí justamente que morava o perigo para mim: Smith seria suficientemente competente para fazer a transição entre seus blockbusters de antes e um filme sentimental sobre adversidades e determinação?

A resposta é afirmativa: sim, senhor. Não foi à toa que Smith foi indicado ao Globo de Ouro, e está indicado ao Oscar por esta atuação. De cabelos levemente grisalhos, óculos enormes e uma força de vontade que dá orgulho de se ver, Smith dá conta do recado corretamente ao interpretar nas telas a história real de Chris Gardner, uma clássica epopéia na busca da felicidade, ou, menos subjetivamente, de uma vida melhor.

(Smith subiu ainda mais no meu conceito quando eu soube que a indicação do nome de Muccino partiu dele, que aparentemente se apaixonou também pelo delicado e firme trabalho do diretor em seus dois longas italianos anteriores).

Quando o filme começa, Chris está casado com Linda (Thandie Newton, de “Crash”, 2004) e é pai de Christopher (Jaden Smith, filho de Will Smith na vida real, e uma das deliciosas surpresas do filme). Apesar da bela família, nada vai bem para os Gardners, que passam por sérios apertos financeiros que resultam também em apertos emocionais: o casal se vê envolto em brigas diárias e Linda se sente pouco entusiasmada diante do idealismo de Chris. O que os une somente é o passado de sonhos que compartilharam e o amor pelo filho, mas não o suficientemente para resistirem juntos às dificuldades.

Linda então, amargurada e desiludida, decide se mudar de São Francisco, onde vivem, para Nova York, onde está sua irmã. Chris, no entanto, não permite que ela leve o filho, ao que Linda se resigna, já que de fato não pode cuidar sozinha de Christopher naquele contexto. E nós percebemos que Chris, em tese, também não pode, mas ele vai tirar água de pedra para dar ao seu filho um futuro melhor.

Para quem espera pela reviravolta na vida de Chris e uma bela lição de moral em Linda, pode esperar sem pressa, por quase duas horas. Não, o filme não é sobre a guinada de Gardner. É sobre a sua busca. Nós sabemos o tempo todo que uma hora a reviravolta vai acontecer, e o filme não está interessado em nos surpreender, então fique tranqüilo: no final, Chris vai se dar bem.

Mas, e até lá? Bem... até lá, o filme não nos poupa, e embora nos aqueça com a ternura da relação entre pai e filho (ajudada pela química real entre Will e Jaden), também mostra toda sorte de dificuldade que Chris enfrentou para chegar lá. É sim comovente, ainda mais por se tratar de uma cinebiografia.

Agora, o que faz de Chris ser especial a ponto de merecer um filme não é sua condição óbvia de vítima, porque neste caso ele seria um em uma multidão de desfavorecidos. O que faz da sua história merecedora de nossa atenção e reflexão é sua condição heróica de doar seu sangue, literalmente, para agarrar uma única oportunidade de transformar efetivamente sua vida, e não de apenas ganhar o pão para aquele mês. É o seu modo de pensar grande, de pensar além, de se permitir ter sonhos, mesmo sem nenhuma condição para sonhar. De acreditar no seu talento com determinação, mesmo quando tudo conspira para ele duvidar. De enfrentar noites em claro ou mal dormidas, em abrigos ou no chão de um banheiro público, com um filho de cinco anos a tiracolo, sem perder de vista seu objetivo maior, e por isso sem desanimar – mesmo quando parecia impossível mesmo para o espectador mais otimista.

Em certo momento, quando pai e filho estão na estação de metrô, sem ter dinheiro sequer para dormir em algum lugar aquecido e, no meio das dificuldades, transformam a dor em brincadeira e o banheiro em caverna para protegê-los dos dinossauros imaginários e reais, o filme me lembrou o consagrado "A Vida é Bela" (1997), do também italiano Roberto Benigni.

Mas, como eu disse, após ler a sinopse, não adianta: é inevitável a sensação, para quem ainda não viu, de um filme moralista sobre perseverança. E você certamente já viu isso antes, e mais de uma vez. E eu não vou dizer que "À Procura da Felicidade" não peque algumas vezes, desnecessariamente, nesse sentindo, nem posso defender o filme dos clichês do gênero, que sim, estão todos lá, devidamente enfileirados.

Só que desta vez, não é que o filme funciona até mesmo por isso? Ponto pacífico: "À Procura da Felicidade" dá um belo sermão no espectador. O filme esfrega o dedo no seu nariz e diz "viu? E você reclamando por tão pouco, desistindo por quase nada!".

Normalmente, estamos cansados de filmes assim. Mas este não. Este é simples, mas tocante. É "educativo", mas não é chato. É moralista, mas na medida.

Acho que se Chris pôde enfrentar tudo que enfrentou para chegar aonde chegou, nós podemos, pelo menos, suportar a lição na cadeira do cinema. Ainda mais quando ela é dirigida por Muccino, com a categoria que lhe é peculiar.

Curiosidade I: o título do filme, que parece puro sentimentalismo barato, não é. Trata-se de uma menção oficial à Declaração da Independência dos Estados Unidos, escrita por Thomas Jefferson, que prevê a todos os cidadãos o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Nada mais democrático. Já o Y em Happyness remete à felicidade cujo acesso chega distorcido não apenas gramaticalmente, mas também semanticamente, àqueles cujas oportunidades são restringidas pelas condições sociais.

Curiosidade II: o verdadeiro Chris Gardner, hoje milionário, faz uma ponta no filme com seu filho, e cruza com o personagem que o representa em uma das andanças de Chris e Christopher por São Francisco. Eu perdi esta, mas gostaria de ter visto.

Destaque ainda para a canção "A Father's Way", indicada ao Globo de Ouro de Melhor Canção Original.


Por Fabiane Secches

À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006). Direção de Gabriele Muccino. Roteiro de Steve Conrad. Com Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton, Brian Howe, James Karen, Kurt Fuller, Kevin West e elenco. Duração aproximada de 117 minutos. Site oficial: www.sonypictures.com/movies/thepursuitofhappyness/


* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 06/02/2007.

Déjà Vu


Com o perdão do trocadilho, ao assistir ao trailer ou ler a sinopse do filme, você pode ter a sensação de que já viu isso antes.

Primeiro: sim, a dupla Denzel Washington e Tony Scott está novamente nas telas - e pela terceira vez. Scott já dirigiu Denzel outras duas vezes, em “Maré Vermelha” (1995) e “Chamas da Vingança” (2005).

Ademais, ao assistir ao filme, talvez o déjà vu continue além: o próprio tema do filme já foi abordado outras vezes, ainda que com enfoques diferentes, como em “Matrix” e “Efeito Borboleta”. Sobre viagens no tempo, ainda mais. Ao lado deste último, os títulos mais diversos se avolumam: desde romances como “Em Algum Lugar do Passado” (esse veio do fundo do baú!), passando por comédias como “De Volta Para o Futuro”, e chegando a filmes de ficção científica propriamente dita, como o já clássico “Exterminador do Futuro”. A lista de filmes com temática recorrente é imensa, não importa qual gênero seja.

No entanto, ainda que possamos citar n elementos que fazem de “Déjà Vu” um filme repleto da sensação que o batiza, há também muito para se dizer de positivo dessa estória adrenérgica: não, o novo longo de Scott está longe de ser um amontoado de clichês e oferece ao espectador reflexões inteligentes e mais de duas horas de entretenimento em grande estilo.

Agora sobre as novidades: começo por ressaltar o desempenho do próprio Scott, que diferentemente de seus trabalhos anteriores, surge em “Déjà Vu” com uma direção mais contida, e propriamente frenética nos momentos oportunos. Desta vez, os recursos estilísticos utilizados se encaixam na estória, e não são apenas recursos estéticos.

A tal fenda no tempo abordada no filme dá então abertura nas telas para teorias físicas e tecnológicas complexas, muitas delas seriamente estudadas cientificamente, e outras tantas que, se não chegam a cair em contradição, caem na ficção.

Olhando por este lado, “Déjà Vu” está longe de ser perfeito e tem falhas que podem incomodar o espectador mais cético e severo. Mas, ultrapassando essa questão (afinal, teorias são teorias, e podem ser improváveis, e até absurdas – elas têm essa licença poética), então o filme pode sim ser interessante, envolvente e bastante divertido.

O premiado Denzel já provou ser um ator com talento acima de qualquer suspeita, embora comumente associe seu nome e carisma a projetos de Cinema mais comerciais. Suas escolhas profissionais, no entanto, costumam ser bem-sucedidas - como o ótimo “O Plano Perfeito”, de Spike Lee.

O papel de bom moço geralmente o persegue: o herói correto e corajoso que nos assegura, muitas vezes, um final feliz. Mas, o mérito de Denzel está, justamente, em fazer do limão uma limonada, e dar profundidade e veracidade aos papéis mais caricatos que lhe forem oferecidos.

Desta vez, o roteiro (que começou a ser escrito há quase dez anos) o ajuda: embora Doug Carlin seja o competente e dedicado policial que já conhecemos bem, de outro lado também escapa de muitos dos clichês que assombram os tão caricatos detetives hollywoodianos usuais.

Vale notar o desempenho suficientemente competente do restante do elenco (que tem nomes como Val Kilmer, Adam Goldberg e Bruce Greendwood), especialmente o vilão Jim Caviezel e a bela Paula Patton, no papel de Claire Kuchever, que começa o filme sendo morta em um atentado terrorista (subtema que evidencia o temor norte-americano constante, também presente no filme) na cidade de New Orleans.

Aliás, o filme foi de fato rodado na New Orleans pós-Katrina, poucos meses depois do terrível incidente que deixou parte da cidade devastada pelo furacão. Os rumores dizem que Scott chegou a procurar uma nova locação após o ocorrido, e não encontrando outra que se encaixasse em seu projeto como gostaria, chegou a pensar em desistir do filme.

Mas, afinal, Scott insistiu na capital do jazz e do carnaval norte-americano como cenário, apesar dos pesares, e a escolha parece ter sido acertada: a atmosfera do desastre (que é mostrada pela primeira vez no Cinema), aliada a fotografia de cores estouradas, funciona como pano de fundo para que o espectador se envolva de fato com a narrativa e se deixe levar de vez.

Os críticos são quase unânimes em assegurar que, embora tenhamos esperado apenas mais um filme-pipoca, “Déjà Vu” nos surpreende.

Sim, é fato que o longa traz idéias e personagens que você talvez já conheça de outros carnavais, mas também traz uma agradável e tensa sessão de cinema, com boas atuações preenchendo a tela e um Tony Scott muito mais maduro e instigante, o que nós apreciamos e agradecemos em coro, sim senhor.

Por Fabiane Secches

Déjà Vu (Idem, EUA, 2006). Direção de Tony Scott. Roteiro de Bill Marsilii e Terry Rossio. Com Denzel Washington,Paula Patton, Jim Caviezel, Val Kilmer, Adam Goldberg, Bruce Greenwood e elenco. Duração aproximada de 128 minutos. Site Oficial: http://dejavu.movies.go.com

* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 01/02/2007.