terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

À Procura da Felicidade


Por mais que eu faça, vai ser difícil convencê-lo aqui, depois de ler a sinopse, que "À Procura da Felicidade" não é um filme piegas que apela deliberadamente para o sentimentalismo barato só para vender seu peixe.

Tudo bem. Eu já estive em seu lugar antes, e quando entrei na sala de cinema para assistir ao filme, não esperava nada diferente disso também. Mas eu me surpreendi. A começar pelos créditos. Porque desta vez a única informação que eu tinha sobre o filme era a sinopse da brochura do cinema (e, aqui entre nós, quando essas sinopses retratam fielmente pelo menos uma parcela do filme?). Então quando o nome de Gabriele Muccino apareceu embaixo de "diretor", eu pisquei para ver se tinha lido bem.

Sim, é ele mesmo, o ótimo diretor italiano por quem eu me apaixonei em “L'Ultimo Baccio” (2001), "O
Último Beijo" em português (se ainda não viu, veja: está disponível em DVD e foi o vencedor de Sundance em 2002) – aquele mesmo que inspirou o norte-americano "Um Beijo a Mais" (2006), que estréia em breve nos cinemas.

Há pouco tempo, em DVD, pude ver, também de Muccino, o drama "Recordati di Me" (2003) - em português, batizado de "No Limite das Emoções" (? e !). Foi quando comprovei que seu talento, de fato, não está limitado a um filme só. Então você há de me desculpar, mas, imediatamente, antes mesmo de começar, "À Procura da Felicidade" subiu dez pontos no meu conceito e eu já queria gostar dele quando Happyness, no título original, apareceu com Y. O além-óbvio já despertava aí.

É verdade que eu ainda estava reticente sobre Will Smith - embora soubesse que ele é um ator carismático capaz de preencher a tela em superproduções, como nos dois "Men in Black" (2000 e 2002), "Bad Boys II" (2003) e "Eu, Robô" (2004). Mas é aí justamente que morava o perigo para mim: Smith seria suficientemente competente para fazer a transição entre seus blockbusters de antes e um filme sentimental sobre adversidades e determinação?

A resposta é afirmativa: sim, senhor. Não foi à toa que Smith foi indicado ao Globo de Ouro, e está indicado ao Oscar por esta atuação. De cabelos levemente grisalhos, óculos enormes e uma força de vontade que dá orgulho de se ver, Smith dá conta do recado corretamente ao interpretar nas telas a história real de Chris Gardner, uma clássica epopéia na busca da felicidade, ou, menos subjetivamente, de uma vida melhor.

(Smith subiu ainda mais no meu conceito quando eu soube que a indicação do nome de Muccino partiu dele, que aparentemente se apaixonou também pelo delicado e firme trabalho do diretor em seus dois longas italianos anteriores).

Quando o filme começa, Chris está casado com Linda (Thandie Newton, de “Crash”, 2004) e é pai de Christopher (Jaden Smith, filho de Will Smith na vida real, e uma das deliciosas surpresas do filme). Apesar da bela família, nada vai bem para os Gardners, que passam por sérios apertos financeiros que resultam também em apertos emocionais: o casal se vê envolto em brigas diárias e Linda se sente pouco entusiasmada diante do idealismo de Chris. O que os une somente é o passado de sonhos que compartilharam e o amor pelo filho, mas não o suficientemente para resistirem juntos às dificuldades.

Linda então, amargurada e desiludida, decide se mudar de São Francisco, onde vivem, para Nova York, onde está sua irmã. Chris, no entanto, não permite que ela leve o filho, ao que Linda se resigna, já que de fato não pode cuidar sozinha de Christopher naquele contexto. E nós percebemos que Chris, em tese, também não pode, mas ele vai tirar água de pedra para dar ao seu filho um futuro melhor.

Para quem espera pela reviravolta na vida de Chris e uma bela lição de moral em Linda, pode esperar sem pressa, por quase duas horas. Não, o filme não é sobre a guinada de Gardner. É sobre a sua busca. Nós sabemos o tempo todo que uma hora a reviravolta vai acontecer, e o filme não está interessado em nos surpreender, então fique tranqüilo: no final, Chris vai se dar bem.

Mas, e até lá? Bem... até lá, o filme não nos poupa, e embora nos aqueça com a ternura da relação entre pai e filho (ajudada pela química real entre Will e Jaden), também mostra toda sorte de dificuldade que Chris enfrentou para chegar lá. É sim comovente, ainda mais por se tratar de uma cinebiografia.

Agora, o que faz de Chris ser especial a ponto de merecer um filme não é sua condição óbvia de vítima, porque neste caso ele seria um em uma multidão de desfavorecidos. O que faz da sua história merecedora de nossa atenção e reflexão é sua condição heróica de doar seu sangue, literalmente, para agarrar uma única oportunidade de transformar efetivamente sua vida, e não de apenas ganhar o pão para aquele mês. É o seu modo de pensar grande, de pensar além, de se permitir ter sonhos, mesmo sem nenhuma condição para sonhar. De acreditar no seu talento com determinação, mesmo quando tudo conspira para ele duvidar. De enfrentar noites em claro ou mal dormidas, em abrigos ou no chão de um banheiro público, com um filho de cinco anos a tiracolo, sem perder de vista seu objetivo maior, e por isso sem desanimar – mesmo quando parecia impossível mesmo para o espectador mais otimista.

Em certo momento, quando pai e filho estão na estação de metrô, sem ter dinheiro sequer para dormir em algum lugar aquecido e, no meio das dificuldades, transformam a dor em brincadeira e o banheiro em caverna para protegê-los dos dinossauros imaginários e reais, o filme me lembrou o consagrado "A Vida é Bela" (1997), do também italiano Roberto Benigni.

Mas, como eu disse, após ler a sinopse, não adianta: é inevitável a sensação, para quem ainda não viu, de um filme moralista sobre perseverança. E você certamente já viu isso antes, e mais de uma vez. E eu não vou dizer que "À Procura da Felicidade" não peque algumas vezes, desnecessariamente, nesse sentindo, nem posso defender o filme dos clichês do gênero, que sim, estão todos lá, devidamente enfileirados.

Só que desta vez, não é que o filme funciona até mesmo por isso? Ponto pacífico: "À Procura da Felicidade" dá um belo sermão no espectador. O filme esfrega o dedo no seu nariz e diz "viu? E você reclamando por tão pouco, desistindo por quase nada!".

Normalmente, estamos cansados de filmes assim. Mas este não. Este é simples, mas tocante. É "educativo", mas não é chato. É moralista, mas na medida.

Acho que se Chris pôde enfrentar tudo que enfrentou para chegar aonde chegou, nós podemos, pelo menos, suportar a lição na cadeira do cinema. Ainda mais quando ela é dirigida por Muccino, com a categoria que lhe é peculiar.

Curiosidade I: o título do filme, que parece puro sentimentalismo barato, não é. Trata-se de uma menção oficial à Declaração da Independência dos Estados Unidos, escrita por Thomas Jefferson, que prevê a todos os cidadãos o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Nada mais democrático. Já o Y em Happyness remete à felicidade cujo acesso chega distorcido não apenas gramaticalmente, mas também semanticamente, àqueles cujas oportunidades são restringidas pelas condições sociais.

Curiosidade II: o verdadeiro Chris Gardner, hoje milionário, faz uma ponta no filme com seu filho, e cruza com o personagem que o representa em uma das andanças de Chris e Christopher por São Francisco. Eu perdi esta, mas gostaria de ter visto.

Destaque ainda para a canção "A Father's Way", indicada ao Globo de Ouro de Melhor Canção Original.


Por Fabiane Secches

À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006). Direção de Gabriele Muccino. Roteiro de Steve Conrad. Com Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton, Brian Howe, James Karen, Kurt Fuller, Kevin West e elenco. Duração aproximada de 117 minutos. Site oficial: www.sonypictures.com/movies/thepursuitofhappyness/


* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 06/02/2007.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei da crítica do filme "À Procura da Felicidade"

Eu acho que as críticas da terrinha do tio Sam foram mais positivas do que as do Brasil, devido ao "Sonho Americano".

Mas achei o filme sensacional, prendeu a atenção, atuação muito boa de Will Smith e domostrou bem o sentimento paterno.

Enfim, foi a crítica que (ao meu ver) melhor caracterizou o filme.

Achei muito boa!