terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Déjà Vu


Com o perdão do trocadilho, ao assistir ao trailer ou ler a sinopse do filme, você pode ter a sensação de que já viu isso antes.

Primeiro: sim, a dupla Denzel Washington e Tony Scott está novamente nas telas - e pela terceira vez. Scott já dirigiu Denzel outras duas vezes, em “Maré Vermelha” (1995) e “Chamas da Vingança” (2005).

Ademais, ao assistir ao filme, talvez o déjà vu continue além: o próprio tema do filme já foi abordado outras vezes, ainda que com enfoques diferentes, como em “Matrix” e “Efeito Borboleta”. Sobre viagens no tempo, ainda mais. Ao lado deste último, os títulos mais diversos se avolumam: desde romances como “Em Algum Lugar do Passado” (esse veio do fundo do baú!), passando por comédias como “De Volta Para o Futuro”, e chegando a filmes de ficção científica propriamente dita, como o já clássico “Exterminador do Futuro”. A lista de filmes com temática recorrente é imensa, não importa qual gênero seja.

No entanto, ainda que possamos citar n elementos que fazem de “Déjà Vu” um filme repleto da sensação que o batiza, há também muito para se dizer de positivo dessa estória adrenérgica: não, o novo longo de Scott está longe de ser um amontoado de clichês e oferece ao espectador reflexões inteligentes e mais de duas horas de entretenimento em grande estilo.

Agora sobre as novidades: começo por ressaltar o desempenho do próprio Scott, que diferentemente de seus trabalhos anteriores, surge em “Déjà Vu” com uma direção mais contida, e propriamente frenética nos momentos oportunos. Desta vez, os recursos estilísticos utilizados se encaixam na estória, e não são apenas recursos estéticos.

A tal fenda no tempo abordada no filme dá então abertura nas telas para teorias físicas e tecnológicas complexas, muitas delas seriamente estudadas cientificamente, e outras tantas que, se não chegam a cair em contradição, caem na ficção.

Olhando por este lado, “Déjà Vu” está longe de ser perfeito e tem falhas que podem incomodar o espectador mais cético e severo. Mas, ultrapassando essa questão (afinal, teorias são teorias, e podem ser improváveis, e até absurdas – elas têm essa licença poética), então o filme pode sim ser interessante, envolvente e bastante divertido.

O premiado Denzel já provou ser um ator com talento acima de qualquer suspeita, embora comumente associe seu nome e carisma a projetos de Cinema mais comerciais. Suas escolhas profissionais, no entanto, costumam ser bem-sucedidas - como o ótimo “O Plano Perfeito”, de Spike Lee.

O papel de bom moço geralmente o persegue: o herói correto e corajoso que nos assegura, muitas vezes, um final feliz. Mas, o mérito de Denzel está, justamente, em fazer do limão uma limonada, e dar profundidade e veracidade aos papéis mais caricatos que lhe forem oferecidos.

Desta vez, o roteiro (que começou a ser escrito há quase dez anos) o ajuda: embora Doug Carlin seja o competente e dedicado policial que já conhecemos bem, de outro lado também escapa de muitos dos clichês que assombram os tão caricatos detetives hollywoodianos usuais.

Vale notar o desempenho suficientemente competente do restante do elenco (que tem nomes como Val Kilmer, Adam Goldberg e Bruce Greendwood), especialmente o vilão Jim Caviezel e a bela Paula Patton, no papel de Claire Kuchever, que começa o filme sendo morta em um atentado terrorista (subtema que evidencia o temor norte-americano constante, também presente no filme) na cidade de New Orleans.

Aliás, o filme foi de fato rodado na New Orleans pós-Katrina, poucos meses depois do terrível incidente que deixou parte da cidade devastada pelo furacão. Os rumores dizem que Scott chegou a procurar uma nova locação após o ocorrido, e não encontrando outra que se encaixasse em seu projeto como gostaria, chegou a pensar em desistir do filme.

Mas, afinal, Scott insistiu na capital do jazz e do carnaval norte-americano como cenário, apesar dos pesares, e a escolha parece ter sido acertada: a atmosfera do desastre (que é mostrada pela primeira vez no Cinema), aliada a fotografia de cores estouradas, funciona como pano de fundo para que o espectador se envolva de fato com a narrativa e se deixe levar de vez.

Os críticos são quase unânimes em assegurar que, embora tenhamos esperado apenas mais um filme-pipoca, “Déjà Vu” nos surpreende.

Sim, é fato que o longa traz idéias e personagens que você talvez já conheça de outros carnavais, mas também traz uma agradável e tensa sessão de cinema, com boas atuações preenchendo a tela e um Tony Scott muito mais maduro e instigante, o que nós apreciamos e agradecemos em coro, sim senhor.

Por Fabiane Secches

Déjà Vu (Idem, EUA, 2006). Direção de Tony Scott. Roteiro de Bill Marsilii e Terry Rossio. Com Denzel Washington,Paula Patton, Jim Caviezel, Val Kilmer, Adam Goldberg, Bruce Greenwood e elenco. Duração aproximada de 128 minutos. Site Oficial: http://dejavu.movies.go.com

* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 01/02/2007.

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