sábado, 24 de março de 2007

Um Beijo a Mais


Cinco ano depois do original, chega aos cinemas a adaptação da ótima comédia dramática italiana, "L'Ultimo Baccio" (dirigida pelo talentoso Gabriele Muccino).

Para quem viu o original em 2001, a notícia do remake veio talvez com um misto de alegria e de reserva.

Primeiro, a alegria de trazer novamente à pauta temas sempre bem vindos e belamente abordados no longa: conflitos amorosos e existenciais atemporais e a grande dificuldade humana de fazer escolhas e renúncias.

Mas, de outro lado, recebemos esta informação ressabiados, já que o título original é tão bom que parecia dispensar qualquer releitura: "L'Ultimo Baccio" ("O Último Beijo" em português) é um filme simples, mas de uma sensibilidade tocante, com um refinado senso de humor e um olhar perspicaz sobre os relacionamentos amorosos.

Surge então a pergunta que a princípio incomoda: embora as reflexões trazidas por Muccino permaneçam válidas (como sempre permanecerão), e embora retomá-las seja mesmo um prazer, será que neste caso não valeria mais a pena uma boa sessão saudade de "L'Ultimo Baccio" no DVD?

Ou seja: será que a tal releitura americana seria boa o suficiente para fazer por merecer nossa ida aos cinemas?

O primeiro bom motivo para isso é que o roteiro da versão americana é assinado pelo prestigiado Paul Haggis, recentemente aclamado por "Menina de Ouro (2004)" e "Crash - No Limite (2004)" - no qual além de roteirista foi também diretor.

Diante da seriedade que o nome de Paul Haggis impõe, associoada ao material original de qualidade, as nossas expectativas naturalmente crescem...

A sinopse é essencialmente a mesma e caso você tenha perdido o italiano, aqui vai um resumo simplório: Michael (interpretado por Zach Braff, da série "Scrubs") se vê às voltas com seus trinta anos e uma profunda crise existencial que os acompanha. Dividido entre a juventude da qual de certo modo já começa a se despedir e a vida adulta que parece aterrisar com força total sobre si, Michael começa a questionar suas escolhas quando a namorada de longa data, Jenna (Jacinda Barrett, de "Poseidon"), descobre estar grávida.

Michael não se sabe ainda preparado para ser marido e pai e para complicar ainda mais, vê-se envolvido com a bela Kim (Rachel Bilson, da série "The O.C."), mais de dez anos mais jovem, que representa um universo leve e descompromissado do qual ele sente cada vez mais falta.

Não bastasse seus próprios dilemas emocionais, Michael acompanha também os conflitos vividos por seus amigos e pelos pais de Jenna. São gerações diferentes, mas com dilemas parecidos sobre o amor, a liberdade, a maturidade e as muitas alegrias e dificuldades dos relacionamentos afetivos.

O papel central, Michael (o Carlo do longa original), é defendido com competência por Braff, que merece destaque desde "Hora de Voltar" (2004), que roteirizou, dirigiu e estrelou. Talvez o Michael de Braff não seja páreo para o Carlo do belo Stefano Accorsi, mas não podemos culpá-lo por não ter o mesmo charme dos italianos, que como escreveu o Bernardo, até quando são feios, são bonitos.

E o inegável carisma de Accorsi é parte essencial para a química do triângulo central que sustenta o filme.

Ainda assim, Braff é talentoso e se sai bem. O mesmo vale para Jacinda Barrett, a Jenna, que neste caso até pode, quem sabe, se comparar em beleza e graça à Giovanna Mezzogiorno, que interpretou o papel similar (Giulia).

Rachel Bilson, a Kim, mostra que pode dar conta de um bom papel nas telonas e convence na versão morena da lolita irresistível.

Ainda no elenco da adaptação estão nomes que merecem destaque como Tom Wilkinson, Blythe Danner e Cassey Affleck.

E não é que o filme é bom? Ainda que seja norte-americano, ainda que seu diretor e alguns de seus atores tenham mais experiência em tv do que em cinema (olha o preconceito...) e ainda que com a sombra do anterior que lhe ofusca, já que permanece superior.

A nova versão não tem aquele ingrediente delicioso que dá o incomparável gostinho à la italiana, mas ainda assim é um filme interessante: "Um Beijo a Mais" é sim uma doce surpresa e refresca idéias de um modo equilibrado e muitas vezes envolvente, com atores dedicados e um cuidadoso roteiro adaptado.

Então, a boa notícia é que embora a sessão do DVD original seja sempre uma boa pedida, a adaptação americana vale sim a pena e pode render quase duas horas de uma agradável sessão de cinema.

Por Fabiane Secches

The Last Kiss (EUA, 2006). Direção de Tony Goldwyn. Roteiro de Paul Haggis, adaptado de Gabrile Muccino. Com Zach Braff, Jacinda Barrett, Rachel Bilson, Tom Wilkinson, Blythe Danner, Cassey Affleck, Marley Shelton, Harold Ramis e elenco. Duração: 115 minutos. Site oficial: http://www.lastkissmovie.com/

* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 22/12/2006
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segunda-feira, 19 de março de 2007

O Bom Pastor


"O Bom Pastor" é um filme difícil. A começar pela sua duração. Quase três horas de uma trama complexa, lenta e arrasatada, que definitivamente não cativa o espectador médio (a maioria deixava a sessão de cinema entediada).

Na verdade, mesmo para quem aprecia filmes do gênero, "O Bom Pastor" não é exatamente envolvente, embora obviamente tenha seu valor, a começar pela primorosa pesquisa histórica que o antecedeu.

Robert de Niro trabalhou nele por uma década antes de levar o filme para as telas. A riqueza de detalhes, o compromisso com a qualidade cinematográfica e a escolha criteriosa de seu elenco salvam "O Bom Pastor" de ser apenas cansativo.

Matt Damon ("Os Infiltrados", 2006), mais uma vez, prova seu talento ao interpretar Edward Wilson, versão cinematográfica de James Jesus Angelton, um dos responsáveis pela fundação da CIA. Wilson, antes um dedicado e brilhante aluno de Yale, é convidado a participar da sociedade secreta Skull and Bones, fraternidade com o objetivo de preparar os líderes mundiais do futuro.

Discreto, leal e inteligentíssimo, Wilson é considerado ideal para integrar o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), durante a 2ª Guerra Mundial, berço de formação da CIA.

Quando ainda estudava poesia em Yale, Wilson se apaixonou pela bela Laura, uma moça delicada e inteligente. A surdez de Laura não é suficiente para impedir a harmonia entre o casal, que só é quebrada quando durante uma festa da Irmandade, Wilson é seduzido por Clover (Angelina Jolie), irmã de John (Gabriel Matcht) e filha do Senador Russell (Keir Dullea), ambos integrantes da sociedade.

Quando se conhecem, Clover não esconde a que veio: logo de cara, confessa que procura pelo marido perfeito. Dito e feito, engravida de Wilson, obrigando-no assim a se casar com ela e romper definitivamente com Laura. Se a vida imita a arte? Foi também nesta época que Angelina Jolie engravidou do namorado Brad Pitt e por esta razão os tablóides estavam constantemente interessados em acompanhar os sets de filmagem de "O Bom Pastor".

Pois bem. Logo no dia de seu casamento, Wilson já é convocado para se mudar para Londres e integrar o OSS, ao que ele prontamente aceita, negligenciando sua nova família por amor ao seu país. Assim, não vê o filho nascer e só retorna para casa seis anos mais tarde. E, mesmo assim, permanece ausente por conta do trabalho misterioso que o suga até a alma e lhe faz um homem com "coração de pedra".

O filme também percorre a temática da relação entre pai e filho: Wilson é um homem de extrema lealdade a seu país não apenas por princípios, mas também por conta de um trauma que sofreu ainda na infância. Seu pai cometeu suicídio quando ele era apenas uma criança após ser acusado de deslealdade pelos seus companheiros militares.

Mais tarde, Wilson vê seu filho (interpretado quando adulto por Eddie Redmayne), que cresce intrigado com tantos segredos e acaba se encantando também pela agência, convidado para fazer parte dela.

Embora seja sim competente em ambas empreitadas, eu ainda acho que de Niro é melhor ator do que diretor, quando preenche a tela com sua intensidade dramática penetrante e seu enorme e inegável carisma. E Angelina Jolie... bem, eu também a considero melhor humanista do que atriz, embora em "O Bom Pastor" ela não esteja em seus piores dias.

"O Bom Pastor" é um suspense dramático que retrata a época e os bastidores da Guerra Fria com esmero. E uma de suas maiores qualidades é, sem dúvida, seu elenco de estrelas, que recebeu o Urso de Prata em Berlim pela Contribuição Artística. Destaque para Matt Damon, claro. Mas também para de Niro, sempre ótimo, que interpreta uma ponta importante como o General Bill Sullivan, assim como Alec Baldwin (que também esteve em "Os Infiltrados" com Damon), muito bem no papel de Sam Murach.

Também brilharam Willian Hurt, como o diretor Philip Allen, Michael Gambon como o professor Dr. Fredericks, Timothy Hulton como Thomas Wilson e Billy Crudup como Arch Cummings. Até mesmo o ator Joe Pesci, afastado há muito das telas, faz uma ponta como o italiano Joseph Palmi.

Em seu segundo longa, de Niro traz um projeto sério e ambicioso, obviamente interessante e bem dirigido, mas também um tanto apático.


Por Fabiane Secches

O Bom Pastor ("The Good Sheperd", 2006, EUA). Direção de Robert de Niro. Roteiro de Eric Roth. Com Matt Damon, Willian Hurt, Alec Baldwin, Michael Gambon, Timothy Hulton, Billy Crudup, Angelina Jolie, Joe Pesci e elenco. Duração aproximada de 167 minutos. Site oficial: http://www.thegoodshepherdmovie.com/




domingo, 18 de março de 2007

Maria Antonieta


Eu preciso começar esta crítica com uma ressalva honesta: adoro Sofia Coppola. Adorei "As Virgens Suicidas" (1999) e adorei especialmente "Encontros e Desencontros" (2003).

Com seu breve e denso currículo, a filha de Francis Ford Coppola esbanja talento genuíno e mostra que, embora tenha um traço comum por toda sua obra - seu olhar sensível, sua postura crítica diante do óbvio e sua refinada alma cinematográfica - é capaz de transitar em universos muito diferentes com a mesma competência: do subúrbio norte-americano dos anos 70 em seu primeiro longa para o cenário ultra-moderno de Tóquio no segundo, e agora uma biografia polêmica, com toda a pompa que um grande filme de época tem direito, mas sob um ângulo completamente inovador.

Sim, "Maria Antonieta" conta a história/estória da lendária rainha da França que ficou imortalizada pelos livros como um símbolo de frivolidade que levou a monarquia à decadência e foi decaptada depois da Revolução Francesa.

Mas, como se espera de Sofia, com sua leitura perspicaz da alma feminina, a sua Maria Antonieta é muito compreendida, e revela o lado humano da vida da rainha, suas qualidades e suas dificuldades. Esqueça a História tão quadrada que a crucifica: você vai se sentir solidário a ela.

Ainda que o grande mérito esteja no roteiro e na direção de Sofia, é preciso ser justa com a atuação da atriz Kirsten Dunst (que também atuou em "As Virgens Suicidas"). Kirsten está realmente ótima no papel e dá conta do recado sem decepcionar. Seu carisma, sua beleza e até mesmo a sua fragilidade nos ajudam a entender que Maria Antonieta era apenas uma adolescente (com apenas quatorze anos) quando se casou com o delfim Luís Augusto, que mais tarde se tornou Luís XVI, rei da França, e enfrentou maus bocados desde que deixou para trás seu país natal, a Áustria, e teve de viver longe de suas raízes e de sua família.

Luís XVI tinha notórias dificuldades sexuais e demorou oito anos até que seu casamento fosse consumado e Maria Antonieta pudesse dar a luz à sua primeira filha. Durante esses anos todos, Maria Antonieta foi vítima de todo tipo de pressão tanto do reino francês como do reino austríaco, assim como do julgamento implacável de todos que a cercavam: acusavam-na de frígida e de estéril e atribuíam a ela os problemas sexuais do rei.

A vida em Versalhes era muito luxuosa, mas também muito rígida, e a solidão que Maria Antonieta experimentou em meio a cerca de quatro mil pessoas (que viviam no palácio na época) é sufocante para os espectadores em muitos momentos. Jovem, linda, cheia de vida, adorava artes e festas, diferentemente de seu marido, que preferia caçar e era um tanto mais caseiro. Ainda assim, a convivência entre ambos parecia ser de amizade e respeito.

Com o tempo, Maria Antonieta cercou-se de amigas nem sempre bem vistas pela nobreza nem pelo povo francês. Com a construção do Petit Trianon em Versalhes, acabou preferindo a privacidade e a liberdade de viver em um espaço menor e sem tantas pompas do que no grande palácio. Teve uma vida alegre e simples. Gostava de viver no jardim, de ópera, e embora apreciasse moda e tivesse uma queda por sapatos (fiquem atentos para a referência do all star, deliciosa brincadeira de Sofia), também era capaz de viver feliz com mais simplicidade.

A edição do filme é interessante, a fotografia é um must, a trilha sonora é improvável e, com certeza, contribui imensamente para o tom cool de "Maria Antonieta".

O figurino é tão deslumbrante que o Oscar não teria outra opção se não premiá-lo com toda justiça, como de fato ocorreu. A direção de arte merece destaque e as cenas filmadas em Versalhes são uma viagem ao tempo. Um banquete visual completo. O baile em comemoração ao casamento de Luís e Maria Antonieta foi realmente gravado no famoso Salão dos Espelhos, fechado ao público para restauração. E os jardins de Versalhes são um espetáculo à parte...

Toda a beleza do lugar é ostentada no filme, todos os excessos preenchem a tela: as roupas, as jóias, os penteados, a alta gastronomia, as festas e as bebidas. A exuberância do modo de vida de Versalhes é ofuscante e as cores que saltam da tela, o cor de rosa das roupas de Maria Antonieta, o dourado da decoração do palácio, o vermelho das frutas, o branco da sua pele, tudo é muito intenso. Nada em "Maria Antonieta" é morno, apenas a relação entre Rei e Rainha.

Mas, em contraste ao brilho de Versalhes, está a angústia interior de Maria Antonieta, o vazio que a assombra, e que nos é apresentado de maneira suave, sem alardes. Se tudo é explícito demais quanto à forma, Sofia faz questão de opor seu enfoque do conteúdo, abordado com sutileza, embora profundamente. E aqui, a diretora acerta novamente ao não mastigar seus argumentos, em não exagerar nos diálogos didáticos e em economizar no panfletarismo óbvio..

Claro que o filme é partidário. É uma visão um tanto mais simpática e suave do que a que tradicionalmente conhecemos de Maria Antonieta. Mas, até por isso, muito mais rica, porque muito mais humana, sem radicalismos que nos afastam da verdade.

A historiadora Evelyne Lever foi consultora técnica de Sofia, que adquiriu os direitos para "Maria Antonieta" em 2000, e se baseou na biografia de Antonia Fraser.

O elenco como um todo está muito bem: Jason Schwartzman (do ótimo "A Garota da Vitrine", 2005) convence como o apático Luís XVI. Rose Byrne representa equilibradamente a Duquesa de Polignac, amiga inseparável de Maria Antonieta. Asia Argento vive a polêmica Madame du Barry, Rip Torn é o Rei Luís XV e Steve Coogan, o Embaixador Mercy. Ainda, Judy Davis interpreta com a competência habitual a Condessa de Noialles.

Alguns criticaram as elipses de tempo em "Maria Antonieta". Eu as achei muito mais apropriadas do que se o filme tivesse a pretensão de narrar todos os episódios vividos pela rainha. Sofia nos poupa até mesmo de um final desnecessariamente sensacionalista, embora continue dramático. Ela tem uma noção exata de até onde deve ir para não comprometer sua proposta. Por esta razão, eu a admiro ainda mais.

Eu realmente adorei "Maria Antonieta" em cada detalhe e acho sinceramente que quem considera que Sofia esteve tão atenta à estética que se esqueceu do conteúdo, na verdade, não compreendeu a alma do filme. É de propósito que o primeiro é explicíto e o segundo é discreto. Afinal, como disse a Condessa de Noialles em certo momento: "This, madam, is Versaille".


Por Fabiane Secches

Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006, EUA/FRA/JAP). Direção e roteiro de Sofia Coppola. Com Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Steeve Coogan, Rip Torn, Asia Argento, Judy Davis, Rose Byrne e elenco. Duração aproximada de 123 minutos. Site oficial:www.marieantoinette-movie.com

terça-feira, 13 de março de 2007

Letra e Música

Que Hugh Grant é o crème de la crème das comédias românticas, com seu irresistível charme desalinhado e seu afiado senso de humor britânico, isso ninguém pode negar.

Que Drew Barrymore é capaz de preencher qualquer tela com seu carisma e com seu timing cômico, tampouco.

Então "Letra e Música" começa acertadamente com a escolha do par romântico central, que além do talento, também tem a tal química essencial para que um filme do gênero funcione bem.

Mas, verdade seja dita, "Letra e Música" é muito mais comédia do que romance, a começar pelo seu impagável clipe de introdução, breguíssimo, que arranca risadas logo de cara - e conquista a simpatia definitiva do espectador em poucos minutos na sala de cinema.

Aliás, o clipe anos 80 é, sem dúvida, o ponto alto do filme. Isso não quer dizer, no entanto, que tudo que venha depois seja um desperdício completo. Não é.

Os mocinhos são duas pessoas talentosas, mas cheias de traumas e medos, aterrorizadas pelo fracasso que as assomba depois de anos vivendo de migalhas do que foram - e do que poderiam ter sido. Essa temática em si é suficientemente interessante.

Alex Fletcher (Hugh Grant) é ex-integrante da banda POP, sucesso de vendas e de audiência nos anos 80. Depois da ruptura da banda, Fletcher tentou seguir carreira solo e chegou a lançar um cd, que foi um fiasco total. Depois disso, desistiu da carreira e passou a viver, conformado, dos direitos autorais das músicas antigas e de modestos shows em parques temáticos e encontros de turma, com a ajuda de seu fiel empresário Chris Riley (Brad Garett, da série "Til Death").

Sophie Fischer (Drew Barrymore) escreve material publicitário para o spa dirigido pela irmã Ronda (Kristen Johnston), além de poesias e textos esparsos para publicações pouco lidas, depois de ver seu sonho como promissora escritora ser destruído pelas duras críticas do professor Sloan Cates (Campbell Scott), com quem também teve um desastroso caso amoroso.

Sophie fica encarregada de cuidar das plantas de Alex (argumento fraco) e os dois se conhecem em um momento crucial da vida dele, quando Cora Corman (Haley Bennet), uma bem sucedida cantora teen (mix de Britney Spears e Christina Aguilera) que é fã de Alex, então o convida para compor uma música para seu novo cd.

Alex não pode recusar a oportunidade, que é sua grande chance de reencontrar o sucesso, mas precisa de um letrista para ajudá-lo. É aí que Sophie entra em ação, com (excessiva) resistência, mas para enfim compor a dupla ideal de letra e música.

O roteiro força a mão muitas vezes, e poderia ser mais criativo em alguns momentos. Mas também tem piadas e cenas verdadeiramente engraçadas, especialmente as de Hugh Grant dançando tão desajeitado...

O mérito do filme de Marc Lawrence (de "Miss Simpatia") - que o escreveu e dirigiu - não é o seu roteiro. Há sim uma boa idéia, além de uma crítica ao ridículo da qualidade musical pop dos dias de hoje, mas ambas são apenas medianamente desenvolvidas. Mas há, sobretudo, uma escolha criteriosa de seus protagonistas. O mesmo filme sem Hugh Grant seria apenas chato.

Drew Barrymore também empresta a graça que faltava e, assim, "Letra e Música" se eleva e o saldo final resta positivo, apesar dos apesares.

Destaque ainda para a apropriada, envolvente e divertida trilha sonora especialmente criada para o filme - definitivamente um charme à parte.

Por Fabiane Secches

Letra e Música (Music and Lyrics, EUA, 2007). Direção e roteiro de Marc Lawrence. Com Hugh Grant, Drew Barrymore, Brad Garrett, Kristen Johnston, Haley Bennett, Campbell Scott e elenco. Duração aproximada de 96 minutos. Site oficial: http://musicandlyrics.warnerbros.com/

Scoop - O Grande Furo


Enfim estréia esta semana no Brasil o novo filme de Woody Allen. Os fãs do diretor estão em polvorosa aguardando pelo seu segundo filme da anunciada "nova" fase européia do diretor.

Bem, desde "Match Point" (2005) eu tenho defendido que esta "nova" fase, na verdade, não existe. O que existe é uma genialidade ímpar de surpreender com algo realmente original, mas sem deixar de ser autoral. O denominador comum sempre esteve lá.

Se Allen de certo inovou com o sofisticado "Match Point", surgindo daquela vez com um elaborado suspense dramático, agora, embora ainda em Londres, o diretor retorna sem cerimônias ao ambiente familiar de comédia romântica escrachada com elementos teatrais e fantásticos. E, com isso, dá o nó em alguns críticos que anunciavam o nascimento de um novo momento cinematográfico para Woody Allen na sua era londrina.

Também está de volta às telas o próprio Allen, afastado há três anos de seus filmes como ator, e em posição de destaque no triângulo das personagens centrais. Do filme anterior permanece, bem mais suavemente colocado, o cenário britânico, e a sua nova musa, a sempre ótima Scarlett Johansson, em papel completamente diferente. Aqui ela continua a moça bonita da história, mas desta vez cômica. Sua sensualidade natural, sempre pulsante, está escondida atrás de um óculos de grau e roupas desajeitadas (exceção para a cena do maiô vermelho, com modelito digno de diva, mesmo sem fazer o menor esforço para ser fatal, e por isso mesmo o sendo como poucas são!).

O "mocinho" da vez é o australiano Hugh Jackman, que se saiu muito bem, mas, justiça seja feita, também não era preciso muito. É uma tarefa árdua fazer uma sinopse de um filme típico de Allen sem que isso pareça um devaneio de loucura, mas, pois bem, eu vou tentar: Johansson é a americana Sondra Pransky, estudante de Jornalismo em Londres, que ao participar de um show de mágicas conhece de uma só vez o ilusionista Sid Waterman (Allen) e o fantasma (literalmente) do grande jornalista Joe Strombel (interpretado pelo inglês Ian McShane).

O recém-falecido Strombel, que em vida não perdia um furo de reportagem (o tal “scoop” do título original), consegue voltar algumas vezes da épica barca conduzida pela Morte (mais teatral impossível) para soprar a Sondra uma bomba que descobriu na além-vida: o insuspeito e charmoso milionário Peter Lyman (Jackman) poderia ser um perigoso serial-killer.

Sondra então conta com a ajuda do seu novo amigo Sid, a única testemunha de que o fantasma de Strombel é “real”, para tentar desmascarar Peter. Dividida entre os princípios éticos e a ambição profissional, Sondra ao mesmo tempo deseja proteger potenciais novas vítimas do suposto assassino e, de certo modo, também cobiça a sensação de ser glorificada como jornalista ao esclarecer o mistério.

Esta jornada arriscada, em meio a truques de mágica e cartas de tarô, rende muitas trapalhadas e risadas fáceis, mas não óbvias, já que os diálogos de Allen quase sempre vão além do lugar comum.

Em alguns momentos, Sid chega a ficar cansativo com piadas repetidas (e eu que não gosto de mágica, tenho esse agravante). Mas não que isso realmente comprometa o charme de “Scoop”.

Pois então, Sondra se aproxima de Peter para assim descobrir informações privilegiadas e acaba, como você imagina, envolvida emocionalmente. Ficamos o tempo todo oscilado entre o culpado e o inocente, sem que isso seja, no entanto, a cereja do bolo de “Scoop”, já que o romance entre os dois não chega a empolgar.

Alguns dizem que faltou química entre Johansson e Jackman, mas eu ainda acredito que o clima relativamente morno entre os dois seja proposital para que não nos percamos onde o filme não é.

Não importa como a trama se resolva, de nenhum modo seria de fato surpreendente. O que não rouba do filme o mérito de reservar algumas (pequenas) surpresas interessantes ao espectador.

A fina ironia continua presente, como sempre esteve, e tenho de dizer que mesmo tendo assistido ao britânico "Scoop" na Champs Elysées em Paris, em clima mais europeu impossível, para mim o diretor continua um nova-iorquino incorrigível, com uma enorme maçã dentro do peito.

Sei que vem por aí "Cassandra's Dream", mais uma produção londrina de Allen, desta vez com Colin Farrell (quem diria!), mas Nova York nunca foi propriamente um retrato da América, então Allen também nunca fez cinema propriamente americano. Nova York é um continente à parte, e não fica tão distante assim desta Londres pela qual o diretor tanto se encantou.

O próprio Allen faz piada com a mudança de cenário dizendo, no filme, que adoraria viver em Londres, onde se sente ótimo, mas o que não se acostuma mesmo é com a mão inversa de direção. Como sempre, o melhor de Allen continua nas sutilezas. O resto é só desculpa - e diversão em grande estilo, mesmo quando o filme é apenas mediano.

E é verdade que eu sou suspeita, preciso admitir. Duplamente suspeita, aliás. Como fã de Allen e fã de Johansson, o meu olhar é obviamente tendencioso. Mas a minha rendição é que não sou a única, então talvez nós, fãs da dupla (juntos ou separados), talvez tenhamos alguma razão em nossas paixões, não é mesmo?

Por Fabiane Secches

Scoop - o Grande Furo (Scoop, Inglaterra/EUA, 2006). Direção e roteiro de Woody Allen. Com Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Ian McShane e Woody Allen. Duração aproximada de 96 minutos. Site oficial: http://www.scoopmovie.net/



* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 05/12/2006.