
Enfim estréia esta semana no Brasil o novo filme de Woody Allen. Os fãs do diretor estão em polvorosa aguardando pelo seu segundo filme da anunciada "nova" fase européia do diretor.
Bem, desde "Match Point" (2005) eu tenho defendido que esta "nova" fase, na verdade, não existe. O que existe é uma genialidade ímpar de surpreender com algo realmente original, mas sem deixar de ser autoral. O denominador comum sempre esteve lá.
Se Allen de certo inovou com o sofisticado "Match Point", surgindo daquela vez com um elaborado suspense dramático, agora, embora ainda em Londres, o diretor retorna sem cerimônias ao ambiente familiar de comédia romântica escrachada com elementos teatrais e fantásticos. E, com isso, dá o nó em alguns críticos que anunciavam o nascimento de um novo momento cinematográfico para Woody Allen na sua era londrina.
Também está de volta às telas o próprio Allen, afastado há três anos de seus filmes como ator, e em posição de destaque no triângulo das personagens centrais. Do filme anterior permanece, bem mais suavemente colocado, o cenário britânico, e a sua nova musa, a sempre ótima Scarlett Johansson, em papel completamente diferente. Aqui ela continua a moça bonita da história, mas desta vez cômica. Sua sensualidade natural, sempre pulsante, está escondida atrás de um óculos de grau e roupas desajeitadas (exceção para a cena do maiô vermelho, com modelito digno de diva, mesmo sem fazer o menor esforço para ser fatal, e por isso mesmo o sendo como poucas são!).
O "mocinho" da vez é o australiano Hugh Jackman, que se saiu muito bem, mas, justiça seja feita, também não era preciso muito. É uma tarefa árdua fazer uma sinopse de um filme típico de Allen sem que isso pareça um devaneio de loucura, mas, pois bem, eu vou tentar: Johansson é a americana Sondra Pransky, estudante de Jornalismo em Londres, que ao participar de um show de mágicas conhece de uma só vez o ilusionista Sid Waterman (Allen) e o fantasma (literalmente) do grande jornalista Joe Strombel (interpretado pelo inglês Ian McShane).
O recém-falecido Strombel, que em vida não perdia um furo de reportagem (o tal “scoop” do título original), consegue voltar algumas vezes da épica barca conduzida pela Morte (mais teatral impossível) para soprar a Sondra uma bomba que descobriu na além-vida: o insuspeito e charmoso milionário Peter Lyman (Jackman) poderia ser um perigoso serial-killer.
Sondra então conta com a ajuda do seu novo amigo Sid, a única testemunha de que o fantasma de Strombel é “real”, para tentar desmascarar Peter. Dividida entre os princípios éticos e a ambição profissional, Sondra ao mesmo tempo deseja proteger potenciais novas vítimas do suposto assassino e, de certo modo, também cobiça a sensação de ser glorificada como jornalista ao esclarecer o mistério.
Esta jornada arriscada, em meio a truques de mágica e cartas de tarô, rende muitas trapalhadas e risadas fáceis, mas não óbvias, já que os diálogos de Allen quase sempre vão além do lugar comum.
Em alguns momentos, Sid chega a ficar cansativo com piadas repetidas (e eu que não gosto de mágica, tenho esse agravante). Mas não que isso realmente comprometa o charme de “Scoop”.
Pois então, Sondra se aproxima de Peter para assim descobrir informações privilegiadas e acaba, como você imagina, envolvida emocionalmente. Ficamos o tempo todo oscilado entre o culpado e o inocente, sem que isso seja, no entanto, a cereja do bolo de “Scoop”, já que o romance entre os dois não chega a empolgar.
Alguns dizem que faltou química entre Johansson e Jackman, mas eu ainda acredito que o clima relativamente morno entre os dois seja proposital para que não nos percamos onde o filme não é.
Não importa como a trama se resolva, de nenhum modo seria de fato surpreendente. O que não rouba do filme o mérito de reservar algumas (pequenas) surpresas interessantes ao espectador.
A fina ironia continua presente, como sempre esteve, e tenho de dizer que mesmo tendo assistido ao britânico "Scoop" na Champs Elysées em Paris, em clima mais europeu impossível, para mim o diretor continua um nova-iorquino incorrigível, com uma enorme maçã dentro do peito.
Sei que vem por aí "Cassandra's Dream", mais uma produção londrina de Allen, desta vez com Colin Farrell (quem diria!), mas Nova York nunca foi propriamente um retrato da América, então Allen também nunca fez cinema propriamente americano. Nova York é um continente à parte, e não fica tão distante assim desta Londres pela qual o diretor tanto se encantou.
O próprio Allen faz piada com a mudança de cenário dizendo, no filme, que adoraria viver em Londres, onde se sente ótimo, mas o que não se acostuma mesmo é com a mão inversa de direção. Como sempre, o melhor de Allen continua nas sutilezas. O resto é só desculpa - e diversão em grande estilo, mesmo quando o filme é apenas mediano.
E é verdade que eu sou suspeita, preciso admitir. Duplamente suspeita, aliás. Como fã de Allen e fã de Johansson, o meu olhar é obviamente tendencioso. Mas a minha rendição é que não sou a única, então talvez nós, fãs da dupla (juntos ou separados), talvez tenhamos alguma razão em nossas paixões, não é mesmo?
Por Fabiane Secches
Scoop - o Grande Furo (Scoop, Inglaterra/EUA, 2006). Direção e roteiro de Woody Allen. Com Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Ian McShane e Woody Allen. Duração aproximada de 96 minutos. Site oficial: http://www.scoopmovie.net/
* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 05/12/2006.
Bem, desde "Match Point" (2005) eu tenho defendido que esta "nova" fase, na verdade, não existe. O que existe é uma genialidade ímpar de surpreender com algo realmente original, mas sem deixar de ser autoral. O denominador comum sempre esteve lá.
Se Allen de certo inovou com o sofisticado "Match Point", surgindo daquela vez com um elaborado suspense dramático, agora, embora ainda em Londres, o diretor retorna sem cerimônias ao ambiente familiar de comédia romântica escrachada com elementos teatrais e fantásticos. E, com isso, dá o nó em alguns críticos que anunciavam o nascimento de um novo momento cinematográfico para Woody Allen na sua era londrina.
Também está de volta às telas o próprio Allen, afastado há três anos de seus filmes como ator, e em posição de destaque no triângulo das personagens centrais. Do filme anterior permanece, bem mais suavemente colocado, o cenário britânico, e a sua nova musa, a sempre ótima Scarlett Johansson, em papel completamente diferente. Aqui ela continua a moça bonita da história, mas desta vez cômica. Sua sensualidade natural, sempre pulsante, está escondida atrás de um óculos de grau e roupas desajeitadas (exceção para a cena do maiô vermelho, com modelito digno de diva, mesmo sem fazer o menor esforço para ser fatal, e por isso mesmo o sendo como poucas são!).
O "mocinho" da vez é o australiano Hugh Jackman, que se saiu muito bem, mas, justiça seja feita, também não era preciso muito. É uma tarefa árdua fazer uma sinopse de um filme típico de Allen sem que isso pareça um devaneio de loucura, mas, pois bem, eu vou tentar: Johansson é a americana Sondra Pransky, estudante de Jornalismo em Londres, que ao participar de um show de mágicas conhece de uma só vez o ilusionista Sid Waterman (Allen) e o fantasma (literalmente) do grande jornalista Joe Strombel (interpretado pelo inglês Ian McShane).
O recém-falecido Strombel, que em vida não perdia um furo de reportagem (o tal “scoop” do título original), consegue voltar algumas vezes da épica barca conduzida pela Morte (mais teatral impossível) para soprar a Sondra uma bomba que descobriu na além-vida: o insuspeito e charmoso milionário Peter Lyman (Jackman) poderia ser um perigoso serial-killer.
Sondra então conta com a ajuda do seu novo amigo Sid, a única testemunha de que o fantasma de Strombel é “real”, para tentar desmascarar Peter. Dividida entre os princípios éticos e a ambição profissional, Sondra ao mesmo tempo deseja proteger potenciais novas vítimas do suposto assassino e, de certo modo, também cobiça a sensação de ser glorificada como jornalista ao esclarecer o mistério.
Esta jornada arriscada, em meio a truques de mágica e cartas de tarô, rende muitas trapalhadas e risadas fáceis, mas não óbvias, já que os diálogos de Allen quase sempre vão além do lugar comum.
Em alguns momentos, Sid chega a ficar cansativo com piadas repetidas (e eu que não gosto de mágica, tenho esse agravante). Mas não que isso realmente comprometa o charme de “Scoop”.
Pois então, Sondra se aproxima de Peter para assim descobrir informações privilegiadas e acaba, como você imagina, envolvida emocionalmente. Ficamos o tempo todo oscilado entre o culpado e o inocente, sem que isso seja, no entanto, a cereja do bolo de “Scoop”, já que o romance entre os dois não chega a empolgar.
Alguns dizem que faltou química entre Johansson e Jackman, mas eu ainda acredito que o clima relativamente morno entre os dois seja proposital para que não nos percamos onde o filme não é.
Não importa como a trama se resolva, de nenhum modo seria de fato surpreendente. O que não rouba do filme o mérito de reservar algumas (pequenas) surpresas interessantes ao espectador.
A fina ironia continua presente, como sempre esteve, e tenho de dizer que mesmo tendo assistido ao britânico "Scoop" na Champs Elysées em Paris, em clima mais europeu impossível, para mim o diretor continua um nova-iorquino incorrigível, com uma enorme maçã dentro do peito.
Sei que vem por aí "Cassandra's Dream", mais uma produção londrina de Allen, desta vez com Colin Farrell (quem diria!), mas Nova York nunca foi propriamente um retrato da América, então Allen também nunca fez cinema propriamente americano. Nova York é um continente à parte, e não fica tão distante assim desta Londres pela qual o diretor tanto se encantou.
O próprio Allen faz piada com a mudança de cenário dizendo, no filme, que adoraria viver em Londres, onde se sente ótimo, mas o que não se acostuma mesmo é com a mão inversa de direção. Como sempre, o melhor de Allen continua nas sutilezas. O resto é só desculpa - e diversão em grande estilo, mesmo quando o filme é apenas mediano.
E é verdade que eu sou suspeita, preciso admitir. Duplamente suspeita, aliás. Como fã de Allen e fã de Johansson, o meu olhar é obviamente tendencioso. Mas a minha rendição é que não sou a única, então talvez nós, fãs da dupla (juntos ou separados), talvez tenhamos alguma razão em nossas paixões, não é mesmo?
Por Fabiane Secches
Scoop - o Grande Furo (Scoop, Inglaterra/EUA, 2006). Direção e roteiro de Woody Allen. Com Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Ian McShane e Woody Allen. Duração aproximada de 96 minutos. Site oficial: http://www.scoopmovie.net/
* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 05/12/2006.
4 comentários:
Fabiane...adorei a critica dada pelo filme!
E olha q a parceria Allen e Johansson deve voltar,né?
Filme falado em espanhol e com participação da Penelope Cruz!
Ainda sem nome mas ansioso por ele!
Xerão.
Boa crítica.
Também sou fã de Allen e Johansson.
Concordo também quando você desmentiu esse 'nova fase' de Allen... Ela realmente não existe. O cenário mudou, mas o conteúdo continua o mesmo, o que é ótimo.
Quero muito ver esse filme, estréia sexta feira né?
Não entendi a ultima fala dela no final.Ela livra ele da prisão dizendo que ele estava sendo chantageado por ter esquecido a abotoadura na casa da prostituta que depois veio a ser assassinada pelo assassino o tarô ou ela entrega ele , dizendo que ele matou ela? Eu entendi que ela livrou ele.
cara, sorry! mas eu odiei o filme!
achei super previsível, sabe?
do comecinho dava pra tu ter certeza de tudo! deu pra rir mto com o magician =x HAHA mas não me valeu a pena :/
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