
Se o polêmico Borat não fosse um personagem, ele estaria longe de ser tão querido.
Borat, se fosse real, certamente estaria na cadeia, ou em um manicômio. E estaria a anos luz de ser engraçado, a não ser por sua tolice quase ingênua. Anti-semita, racista, incestuoso, machista, leviano, inconseqüente e sem nenhuma vergonha na cara, Borat só não seria cruel porque seria patético.
Mas Borat não é real. É um personagem criado por Sacha Baron Cohen, respeitado comediante britânico, graduado em História pela Universidade de Cambridge e consagrado na Inglaterra com o seu "Da Ali G Show" (onde a idéia de Borat nasceu).
Então é diferente. Borat foi criteriosamente elaborado, e sem nenhuma ingenuidade. Portanto, o filme carrega uma mensagem consigo: Borat faz, revestido de humor, uma crítica às avessas cada vez que fala sobre judeus, mulheres, gays e outras vítimas de preconceito, ao se ridicularizar constantemente.
O nome completo é "Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan" e se apresenta como um "documentário", no qual Borat é o segundo melhor jornalista do Cazaquistão, que parte para uma viagem aos "Estados Unidos e América" (US and A, como ele diz, em um de seus crassos e famosos erros da língua inglesa) para estudar a cultura norte-americana e, assim, trazer soluções novas para melhorar a vida de seu país.
Ora... se isso não é uma enorme ironia, o que mais poderia ser?
O Cazaquistão, na vida real, sentiu-se muitíssimo ofendido (o que até se compreende), ao ser retratado de um modo absolutamente retrógrado, preconceituoso e provavelmente injusto. Mas o que o país não percebeu foi que a grande crítica de Borat paira sobre a terra do Tio Sam, sempre tão ufanista!
Ao chegar nos Estados Unidos, Borat logo perde seu foco, ao se apaixonar pela atriz Pamela Anderson quando a vê em um capítulo de "Baywatch" na tv. Então a sua pretendida reportagem fica para segundo plano e nós acompanhamos a busca pela sua “amada” de Nova York até a Califórnia.
No meio do caminho, muitas trapalhadas dão o tom, com tapas com luva de pelica na hipocrisia americana: hi five!!!
No entanto, o grande destaque que o filme tem recebido não é apenas o de confrontar, e sim o de arrancar muitas risadas (e mais risadas, seguidamente), despudoradamente.
Se Borat é de fato hilário em muitos momentos, também é verdade que se repete e fica cansativo outras vezes,ainda que o longa tenha menos de uma hora e meia de duração. E não será a tal sunga amarela usada de um modo nada convencional que irá agradar ao espectador mais exigente, nem as cenas escatológicas de Borat e seu amigo gorducho pelados lutando pelo quarto e correndo pelo hotel.
Não é o pastelão de Borat que faz dele o sucesso que é.
O filme, que hoje já é um fenômeno mundial, custou apenas US$ 18 milhões e se pagou logo na sua estréia, que aconteceu em circuito reduzido (batendo o então recordista “Fahrenheit”, de 2004, neste contexto), ao arrecadar mais de US$ 26 milhões logo de cara.
E o que mais existem são curiosidades: as autoridades policiais, incluindo o Serviço Secreto, foram acionadas durante as filmagens quase cem vezes (mesmo!) e em uma delas, Sacha foi interrogada sem deixar seu personagem, fazendo se passar pelo próprio Borat, como tem repetido em entrevistas, inclusive na CNN.
Muitos o equiparam ao fenômeno Monty Phyton, mas, embora seja uma referência apropriadamente revolucionária, eu ainda acho que Borat está mais para a turma do "Pânico na TV" com as suas versões do Lula e do Clodovil desfilando em Brasília, como se fossem os próprios... com a diferença, claro, que Borat não ri de suas trapalhadas. Incrível a concentração de Sacha no papel.
E é preciso dizer para quem ainda o acusa de anti-semita que prestem atenção ao personagem quando ele fala a sua "língua nativa". Não, não é cazaque. É hebraico. Como vocês vêem, o filme tem mais a dizer do que o óbvio. Afinal, Sacha, ele próprio, é judeu.
Já a expressão “Jak sie masz?” é polonesa e quer dizer “Como vai você?”. Além de polonês, hebraico e um inglês capenga, também há armênio no filme.
Dizem que ou se ama Borat, ou não se compreendeu. Pode ser. Eu acho uma afirmação um pouco apaixonada demais. Mas devo admitir que me diverti bastante com ele, especialmente com o seu péssimo domínio do inglês e com a quantidade de vezes que ele se refere às "prostitutes"... sem dúvidas, uma figura!
Se ele força a mão algumas vezes, isso não parece ter sido empecilho para Sacha arrematar o Globo de Ouro de Melhor Ator (Comédia), nem de abocanhar uma indicação ao tradicional prêmio da Academia, o Oscar, como Melhor Roteiro Adaptado. Quem diria...
Grande parte dos fãs de Borat não é tão criterioso, e gosta dele pelas risadas fáceis trazidas pelo seu humor libertário, politicamente incorreto. Eu gosto dele principalmente por ser transgressor e reinventar, com muita ousadia, o já consagrado humor britânico.
Afinal, já estávamos cansados de ver as mesmas coisas nas telas quando o assunto é comédia.
Sacha também foi roteirista do filme ao lado de uma trupe - e quanto dos diálogos não foram puro improviso do ator? Ele, inclusive, está sendo processado por uso indevido de imagens, já que, em seu “documentário”, apenas Borat e seu núcleo são personagens. As outras pessoas são reais, e as suas reações também.
A direção é de Larry Charles, que já atuou e escreveu episódios de séries bem sucedidas como “Seinfeld” e “Entourage”.
Se você está ansioso pela estréia nacional (prevista para 23 de fevereiro) e mal pode esperar para tirar a teima, existem muitos aperitivos no youtube, alguns especialmente engraçados, como Borat ele mesmo em entrevista no David Letterman e no Tonight Show, assim como vídeos de Borat tendo lições de habilitação nos Estados Unidos, Borat em discurso para os republicanos, Borat tendo aula de etiquetas, enfim...
Depois de um tempo, tudo é quase igual, embora seja fato que as pessoas continuam rindo até das piadas repetidas, porque Borat, afinal, já virou um hit.
Vejam o site “oficial”, devidamente amador. Vale a pena a visita para saber mais.
Vá aos cinemas para rir, mas com discernimento. Não é o preconceito que faz do filme engraçado, por favor. É a maneira de Sacha tratar esse preconceito e, principalmente, os preconceituosos. Aí sim está o verdadeiro valor desse filme que já é, no mínimo, um marco na história do cinema moderno. Hi five!!!
Por Fabiane Secches
Borat! (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, EUA, 2006). Direção de Larry Charles. Com Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell e Pamela Anderson. Roteiro de Sacha Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mayzer, baseado em criação de Sacha Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham e Todd Phillips. Duração aproximada de 84 minutos. Site oficial: http://www.borat.tv/
Borat, se fosse real, certamente estaria na cadeia, ou em um manicômio. E estaria a anos luz de ser engraçado, a não ser por sua tolice quase ingênua. Anti-semita, racista, incestuoso, machista, leviano, inconseqüente e sem nenhuma vergonha na cara, Borat só não seria cruel porque seria patético.
Mas Borat não é real. É um personagem criado por Sacha Baron Cohen, respeitado comediante britânico, graduado em História pela Universidade de Cambridge e consagrado na Inglaterra com o seu "Da Ali G Show" (onde a idéia de Borat nasceu).
Então é diferente. Borat foi criteriosamente elaborado, e sem nenhuma ingenuidade. Portanto, o filme carrega uma mensagem consigo: Borat faz, revestido de humor, uma crítica às avessas cada vez que fala sobre judeus, mulheres, gays e outras vítimas de preconceito, ao se ridicularizar constantemente.
O nome completo é "Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan" e se apresenta como um "documentário", no qual Borat é o segundo melhor jornalista do Cazaquistão, que parte para uma viagem aos "Estados Unidos e América" (US and A, como ele diz, em um de seus crassos e famosos erros da língua inglesa) para estudar a cultura norte-americana e, assim, trazer soluções novas para melhorar a vida de seu país.
Ora... se isso não é uma enorme ironia, o que mais poderia ser?
O Cazaquistão, na vida real, sentiu-se muitíssimo ofendido (o que até se compreende), ao ser retratado de um modo absolutamente retrógrado, preconceituoso e provavelmente injusto. Mas o que o país não percebeu foi que a grande crítica de Borat paira sobre a terra do Tio Sam, sempre tão ufanista!
Ao chegar nos Estados Unidos, Borat logo perde seu foco, ao se apaixonar pela atriz Pamela Anderson quando a vê em um capítulo de "Baywatch" na tv. Então a sua pretendida reportagem fica para segundo plano e nós acompanhamos a busca pela sua “amada” de Nova York até a Califórnia.
No meio do caminho, muitas trapalhadas dão o tom, com tapas com luva de pelica na hipocrisia americana: hi five!!!
No entanto, o grande destaque que o filme tem recebido não é apenas o de confrontar, e sim o de arrancar muitas risadas (e mais risadas, seguidamente), despudoradamente.
Se Borat é de fato hilário em muitos momentos, também é verdade que se repete e fica cansativo outras vezes,ainda que o longa tenha menos de uma hora e meia de duração. E não será a tal sunga amarela usada de um modo nada convencional que irá agradar ao espectador mais exigente, nem as cenas escatológicas de Borat e seu amigo gorducho pelados lutando pelo quarto e correndo pelo hotel.
Não é o pastelão de Borat que faz dele o sucesso que é.
O filme, que hoje já é um fenômeno mundial, custou apenas US$ 18 milhões e se pagou logo na sua estréia, que aconteceu em circuito reduzido (batendo o então recordista “Fahrenheit”, de 2004, neste contexto), ao arrecadar mais de US$ 26 milhões logo de cara.
E o que mais existem são curiosidades: as autoridades policiais, incluindo o Serviço Secreto, foram acionadas durante as filmagens quase cem vezes (mesmo!) e em uma delas, Sacha foi interrogada sem deixar seu personagem, fazendo se passar pelo próprio Borat, como tem repetido em entrevistas, inclusive na CNN.
Muitos o equiparam ao fenômeno Monty Phyton, mas, embora seja uma referência apropriadamente revolucionária, eu ainda acho que Borat está mais para a turma do "Pânico na TV" com as suas versões do Lula e do Clodovil desfilando em Brasília, como se fossem os próprios... com a diferença, claro, que Borat não ri de suas trapalhadas. Incrível a concentração de Sacha no papel.
E é preciso dizer para quem ainda o acusa de anti-semita que prestem atenção ao personagem quando ele fala a sua "língua nativa". Não, não é cazaque. É hebraico. Como vocês vêem, o filme tem mais a dizer do que o óbvio. Afinal, Sacha, ele próprio, é judeu.
Já a expressão “Jak sie masz?” é polonesa e quer dizer “Como vai você?”. Além de polonês, hebraico e um inglês capenga, também há armênio no filme.
Dizem que ou se ama Borat, ou não se compreendeu. Pode ser. Eu acho uma afirmação um pouco apaixonada demais. Mas devo admitir que me diverti bastante com ele, especialmente com o seu péssimo domínio do inglês e com a quantidade de vezes que ele se refere às "prostitutes"... sem dúvidas, uma figura!
Se ele força a mão algumas vezes, isso não parece ter sido empecilho para Sacha arrematar o Globo de Ouro de Melhor Ator (Comédia), nem de abocanhar uma indicação ao tradicional prêmio da Academia, o Oscar, como Melhor Roteiro Adaptado. Quem diria...
Grande parte dos fãs de Borat não é tão criterioso, e gosta dele pelas risadas fáceis trazidas pelo seu humor libertário, politicamente incorreto. Eu gosto dele principalmente por ser transgressor e reinventar, com muita ousadia, o já consagrado humor britânico.
Afinal, já estávamos cansados de ver as mesmas coisas nas telas quando o assunto é comédia.
Sacha também foi roteirista do filme ao lado de uma trupe - e quanto dos diálogos não foram puro improviso do ator? Ele, inclusive, está sendo processado por uso indevido de imagens, já que, em seu “documentário”, apenas Borat e seu núcleo são personagens. As outras pessoas são reais, e as suas reações também.
A direção é de Larry Charles, que já atuou e escreveu episódios de séries bem sucedidas como “Seinfeld” e “Entourage”.
Se você está ansioso pela estréia nacional (prevista para 23 de fevereiro) e mal pode esperar para tirar a teima, existem muitos aperitivos no youtube, alguns especialmente engraçados, como Borat ele mesmo em entrevista no David Letterman e no Tonight Show, assim como vídeos de Borat tendo lições de habilitação nos Estados Unidos, Borat em discurso para os republicanos, Borat tendo aula de etiquetas, enfim...
Depois de um tempo, tudo é quase igual, embora seja fato que as pessoas continuam rindo até das piadas repetidas, porque Borat, afinal, já virou um hit.
Vejam o site “oficial”, devidamente amador. Vale a pena a visita para saber mais.
Vá aos cinemas para rir, mas com discernimento. Não é o preconceito que faz do filme engraçado, por favor. É a maneira de Sacha tratar esse preconceito e, principalmente, os preconceituosos. Aí sim está o verdadeiro valor desse filme que já é, no mínimo, um marco na história do cinema moderno. Hi five!!!
Por Fabiane Secches
Borat! (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, EUA, 2006). Direção de Larry Charles. Com Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell e Pamela Anderson. Roteiro de Sacha Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mayzer, baseado em criação de Sacha Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham e Todd Phillips. Duração aproximada de 84 minutos. Site oficial: http://www.borat.tv/
* Esta crítica (reeditada) foi originalmente publicada no site Zeta Filmes, em 12/02/2007.
3 comentários:
Oi, desculpe a minha ignorância, mas me explica o q significa a expressão "hi five" ???
Parabéns pelo blog!!!
NICEEEEEEEEEEEEE!!
Muito engraçado, muito inteligente, divertido, e a critica esta otima
Muito boa crítica...
Concordo com todos os pontos...
Também acho que a "cena principal" (a mais importante do filme, a que dê a cara ao filme, a que faça valer a pena pagar o ingresso, e a que vá agradar a maioria) não seja a do hotel, mas gostaria de ressaltar que foi a que mais me arrancou risadas e légrimas.... Muitas, muitaas risadas... e muitas e muitas lágrimas...
Saí do cinema passando mal...
Mas valeu muito a pena...
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